O médico e o bêbado.

Era mais um plantão de sábado à noite. O pronto socorro estava movimentado, mas a maioria dos pacientes não apresentava gravidade. Eram resultado de brigas estúpidas, bêbados desacordados ou vomitando trazidos pelos amigos tão bêbados quanto ou crises de ansiedades geradas por términos de relacionamentos.

Rodrigo já estava habituado com essa rotina. Afinal, esse era o seu posto desde que terminara a residência médica em cirurgia geral. Duas noites de sábado por mês, nos últimos 8 meses. Não era algo que pretendia manter por muito tempo. Estava cansado de perder programas muito mais interessantes com os amigos para cuidar de quem nem deveria estar em um hospital, em sim em uma detenção escolar, aprendendo boas maneiras, ou no consultório de um terapeuta. Mas, pagava as contas.

Seus devaneios e a sutura que realizava na testa de um brigão foram interrompidos por um enfermeiro esbaforido, que adentrou ruidosamente a sala de procedimentos:

– Doutor, o SAMU acabou de ligar e estão trazendo 3 vítimas de acidente automobilístico!

O funcionário mal terminara a frase e já era possível ouvir as sirenes se aproximando.

– Peça para alguém terminar esse curativo. – Rodrigo já descalçava as luvas e corria para a sala de emergência para receber os pacientes.

Tratava-se de dois homens e uma garota. Um dos homens estava acordado, gritando e xingando todos os profissionais por terem o amarrado na prancha de salvamento e colocado um enforcador no seu pescoço. Tratava-se do colar cervical. Ele estava evidentemente muito alcoolizado. As outras vítimas estavam desacordadas, já intubadas e sendo ventiladas artificialmente. E isso não era bom.

O socorrista informou tratar-se de uma colisão frontal de 2 automóveis, causada pelo paciente agitado. As vítimas desacordadas eram pai e filha.

Rodrigo e a equipe do pronto-atendimento colocaram-se a trabalhar rapidamente e avaliar a situação de cada um. A fratura exposta do fêmur direito do pai chamava a atenção, mas o achatamento do tórax apontava-o como o estado mais grave. A menina aparentemente não apresentava nenhum sangramento e mantinha um bom ritmo cardíaco. E o bêbado, continuava berrando e ameaçando a todos. Isso era sinal de que era o menos grave dos três.

– Quero um ultrassom abdominal da garota. – Rodrigo orientava o enfermeiro.

Um monitor começou a apitar insistentemente. O pai havia sofrido uma parada cardíaca. Médico e equipe prontamente iniciaram as manobras de ressuscitação. Massagem, ventilação, drogas, hidratação. Cardioversão elétrica. Nada. Então recomeçaram tudo de novo, e de novo, e de novo. Sem sucesso, a morte da vítima foi declarada às 2:26.

Rodrigo controlou sua frustração e se concentrou na menina. Aparentemente, o único ferimento era um corte na testa rodeado por um hematoma elevado. No resultado do ultrassom, uma surpresa: ela estava gravida!

Depois de uma avaliação minuciosa, foi afastado qualquer risco de sangramento iminente.

– Ela está estável. Vamos levá-la para a tomografia de crânio. – O jovem médico já se preparava para acompanhar a paciente.

Enquanto a máquina fazia o seu trabalho, Rodrigo acompanhava as imagens obtidas pelo computador da sala de laudos. Em poucos instantes, todas suas esperanças esvaíram-se. O cérebro da menina dava lugar a uma enorme massa branca que ocupava praticamente o hemisfério esquerdo inteiro. Era uma hemorragia gravíssima e fatal. Não havia nada que ele pudesse fazer.

Voltou para o pronto socorro com a maior sensação de impotência que já sentira. Três vidas escorreram entre seus dedos: o pai, a filha e o bebê. E ele não foi capaz de salvá-las.  Chegando na sala de emergência, estranhou o silêncio. Faltava algo.

– Onde está a terceira vítima do acidente? O Bêbado?

– Evadiu. – Informou a auxiliar. – Conseguiu se soltar da prancha e foi embora.

Rodrigo ficou irado. Sem perceber, descarregou sua raiva em uma bandeja com materiais de curativo, fazendo todos voarem pelos ares. Sentou-se no primeiro banco que encontrou, massageando as têmporas suadas e apoiando a cabeça na parede de ladrilhos amarelos.

Era uma injustiça sem tamanho! Uma família inteira morta por um irresponsável, bêbado, que nada sofreu. Que conseguiu fugir do hospital sem prestar as devidas contas com as autoridades! E a menina, que só tinha 16 anos, estava gravida! Outra vida que não teve nem a chance de vir ao mundo!

O resto do plantão transcorreu sem intercorrências, e não passou de cenas sem conexão na mente de Rodrigo. Ele estava preso àquelas vítimas. Àquela tragédia. Àquele bêbado, bandido e foragido. Um ódio aflorou em sua alma. Como ele gostaria de encontrar aquele monstro e encher sua cara de porrada, até ver todos os dentes caírem, e ele fosse incapaz de continuar gritando irritantemente todas aqueles absurdos que teve que ouvir. E ele continuaria socando, e socando e socando, até a tomografia de crânio do bêbado ficar igual a tomografia de crânio da menina. Isso seria justiça!

Foi despertado dessa imagem satisfatória com uma buzina do carro de traz, impaciente. Mal tinha se dado conta que o turno já tinha acabado e ele estava dirigindo de volta para casa. Acelerou até o próximo semáforo fechado, tentando se concentrar no que estava fazendo.

Foi quando o viu. Ali, bem na sua frente: o bêbado. Parado no meio da rua, xingando o nada, agitando os braços como se discutisse com alguém bem a sua frente. Ainda usava o colar cervical. Rodrigo olhou para os lados: as ruas estavam desertas as 7h da manhã de domingo. Não havia nenhuma testemunha. E se ele acelerasse? Apertasse o pedal até o fundo e não desviasse? Não seria justo?

A ideia era muito convidativa. Rodrigo sentiu seu coração disparar e as mãos suavam ao volante. Manteve os olhos fixos no alvo. Ele estaria apenas terminando o que o destino não deu conta. Quanto tempo demoraria para aquele desgraçado matar outro inocente?

Sem raciocinar mais, apenas enfiou o pé no acelerador até sentir o fundo do carro embaixo dele. Os pneus cantaram, e o carro disparou. Rodrigo olhou fixamente para aquele assassino e deixou o carro avançar. Já podia imaginar qual seria a sensação de quebrar todos os seus ossos.

Mas no último momento, desviou. Não teve coragem. Só conseguiu com que o bêbado se desequilibrasse com o susto e caísse sentado no chão. Podia ouvir seus insultos quando perdeu o controle do carro. A virada brusca em alta velocidade fez o automóvel capotar.

Rodrigo foi jogado em várias direções. Só então percebeu que estava sem o cinto de segurança. Colidiu com o volante, o teto, o freio de mão. Quando finalmente parou de ser sacudido, não identificava mais em que direção ficava o céu, e o solo. Não sentia suas pernas e um líquido morno rapidamente o molhava inteiro.

 Sentiu-se tonto e o mundo se fechava em uma escuridão acolhedora. Ouviu o bêbado se aproximando. Seus passos cessaram e seu rosto apareceu pela janela com os vidros estraçalhados. Estava sério, com o semblante sombrio. Encarava Rodrigo sem desviar o olhar. Aparentava sobriedade total.

Rodrigo tentou alcançá-lo com as mãos, pedindo socorro, mas o bêbado não se mexeu. Ficou parado, apenas observando diretamente seus olhos. Com uma gargalhada medonha e uma voz não humana, pronunciou as últimas palavras que o médico ouviria:

– O bêbado filho da puta matou mais um.

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