Fios de clara de ovo

A UTI estava agora sempre lotada. Desde o início da pandemia COVID-19, ter um leito disponível era impossível. Os pacientes pioravam muito rápido, precisavam de intubação e suporte ventilatório. E ficavam semanas nesse estado, com melhora muito lenta, o que impossibilitava atender outros pacientes. Era o chamado “colapso” que tanto temíamos.

Os bipes dos monitores e o som dos ventiladores mecânicos embalavam o plantão. Pacientes imóveis e críticos se espalhavam por todo o salão do setor, ocupando até mesmo os leitos extras improvisados na urgência.

Era em um deles que ele se encontrava. Dr. Paulo era um médico querido por toda a equipe. Dedicado à sua vocação, nunca abandonou a linha de frente. Mesmo quando mal sabíamos com que estávamos lidando, ele estava lá, pronto para ajudar. Como um cavaleiro heroico em sua armadura sob a forma de jaleco branco. Munido com conhecimento e experiência. Mas, até ele foi abatido, e se encontrada agora dependente do ar empurrado para dentro dos seus pulmões artificialmente.

Ele era estimado por todos. Mas principalmente por mim. Paulo e eu vivíamos um romance às escondidas há 1 ano. Sempre tivemos medo de nos assumir, pensando no impacto que isso geraria dentro do nosso ambiente de trabalho, visto que ele é meu chefe, e o hospital é financiado por uma instituição católica, que não aprovaria um relacionamento dessa natureza. Talvez agora, não faça mais diferença.

A falsa tranquilidade do plantão foi interrompida pelo alarme estridente do monitor cardíaco do leito 9. Uma senhora de 77 anos havia sofrido uma parada cardíaca. Prontamente eu e minha equipe começamos as manobras de ressuscitação: massagem cardíaca, drogas, cardioversão elétrica. O ciclo foi repetido durante 15 longos minutos. Quando já estava quase desistindo, o pulso voltou. Esse tipo de intercorrência tinha virado rotina, mas a maioria dos pacientes não tinha um desfecho tão favorável.

No plantão seguinte, Paulo continuava em estado crítico. Sem nenhuma melhora. Mas a senhora do leito 9, estava acordada, respirando espontaneamente através da sua máscara de oxigênio.

A examinava quando ela afastou a máscara e me interrompeu:

– Eu vi tudo, meu filho.

Retirei o estetoscópio para ouvi-la melhor.

– Eu vi você me apertando quando meu coração parou. Vi quando me deu aquele choque igual nos filmes. – E levou a mão trêmula até o peito em um gesto inconsciente.

– Isso não é possível, dona Cida. A senhora deve ter sonhado.

Ela olhava para o teto enquanto falava:

– Eu estava lá em cima. Vendo tudo. Flutuando como um balão. E tinha um fio transparente, como clara de ovo, que me impedia de sair voando…

– É só o seu cérebro pregando peças, por causa da falta de oxigênio durante a parada cardíaca, e…

– E todos aqui estão flutuando também. – Ela me interrompeu, ignorando minhas explicações. – Todos estão presos pelo fio de clara de ovo. Mas alguns são bem fininhos. E acho que são esses que vão morrer em breve.

– Fios de clara de ovo?

– Isso mesmo. Os fininhos vão se romper. Acho que então o corpo morre, mas a pessoa vai sair voando por esse teto.

Não respondi. Me limitei a concordar sorrindo. Pacientes idosos sempre acabavam delirando em internações prolongadas.

– Eu sei que não acredita em mim. Eu também não acreditaria. Pareço uma louca. Mas você vai ver.

– Vou ver o quê, dona Cida?

– Aquele ali. O leito doze. Tinha o fio mais fininho.

– Tudo bem. Vou ficar de olho nele. Agora é melhor a senhora parar de falar e colocar sua máscara de novo. A saturação começou a cair.

Terminei de avaliar os pacientes e finalmente pude me recolher na pequena copa para jantar. Mal tinha engolido a terceira garfada, quando a enfermeira abriu a porta abruptamente:

– Doutor! O paciente do leito doze está em parada cardíaca!

Larguei a refeição e fomos correndo atender a emergência. Depois de tentar as manobras de ressuscitação por 30 minutos, fui obrigado a constatar o óbito. Não pude evitar de encarar dona Cida quando passei desanimado na frente do seu leito. Ela me chamou com seus dedos magros e manchados. Ao me aproximar, ela abaixou novamente a máscara e disse baixinho, revelando um segredo:

– Aquela ali, do leito dois.

– O que tem ela, dona Cida?

Antes que ela me respondesse, o monitor cardíaco daquele leito disparou o alarme. Outra parada cardíaca. Novamente, a correria se instalou na UTI. Massagem, choque, drogas, óbito.

Me sentia frustrado, e até mesmo irritado. Passei na frente do leito 9 sem olhar para dona Cida. Aquilo era ridículo, e estava me desconcentrando do meu trabalho! Entrei no quarto de repouso dos médicos e me joguei numa poltrona. Tentava raciocinar logicamente. Fios de clara de ovos não existem. Pessoas não flutuam fora do corpo como balão. Aquilo era delírio de uma velha doente.

Por outro lado, foram aqueles exatos pacientes que faleceram. Como ela falou. Mas todos aqui são pacientes graves, lutando pela vida. Não é tão surpreendente assim que alguns não vençam. E foi quando tive um estalo: Paulo! Se houvesse alguma verdade naquela fantasia, dona Cida poderia me dizer como era o fio de clara de ovo de Paulo. Se ele venceria sua batalha. Era loucura, eu sei. Mas a esperança não é racional.

Voltei ao leito 9. Dona Cida apenas me encarava, com sua respiração ofegante embaçando a máscara de oxigênio.

– Você disse que todos estão flutuando presos aos fios de clara de ovo, certo?

Apenas concordou, sem forças para falar.

– Como era o fio do paciente do leito quatro?

Ela me olhava fixamente. Me aproximei um pouco mais e perguntei novamente. A paciente continuava me encarando, com o olhar perdido, opaco.

– Dona Cida, como era o fio do paciente do leito quatro?!

Nada, apenas o olhar vazio.

– Dona Cida?! Dona Cida, me responda!

Quando dei por mim eu estava sacudindo a velha senhora com desespero, e só sai daquele transe por causa do alarme do monitor. Seu coração parara novamente. Imediatamente, a equipe invadiu o box do leito e as manobras recomeçaram. Não conseguia desviar o olhar do teto, como se esperasse ver dona Cida lá em cima, e de alguma maneira ela conseguisse me responder. Conseguisse acabar com a minha angústia, com o meu desespero. Como era o fio do paciente do leito 4?! Mas o coração de dona Cida nunca voltou a bater.

9 comentários em “Fios de clara de ovo

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  1. EIta! vc sabe que tenho medo dessas coisas hahah mas adorei a leitura, me prendeu demais. Por acaso Dona Cida voltou no sonho do Dr Paulo para avisar quao espesso era o fio do leito 4? =*

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  2. Uma história angustiante e que retrata bem o período que estamos passando nessa pandemia. E o toque de mistério acrescentado pelos “fios de clara de ovo” nos deixam a pensar se, por acaso, algo parecido não esteja acontecendo nos leitos dos hospitais neste exato momento. Vai de cada um acreditar ou não.

    Curtido por 1 pessoa

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