A velha e o cão

Finalmente consegui um emprego, depois de 3 anos sem um trabalho formal. O cargo de vigia noturno não era o glamour que um dia sonhei para mim, mas não estava em condições de escolher. Seria responsável por vigiar o acesso principal à fábrica. Isso basicamente queria dizer que passaria o turno da madrugada, das 22h às 7h, olhando para escuridão de um beco perdido no meio da grande cidade de São Paulo.

Cheguei cedo no meu primeiro dia e fui apresentado para Antônio, meu companheiro de turno. Antônio era um cara baixo, mas parrudo, com ar entediado, que já exercia a mesma função há cerca de 2 anos.

– Você é o cara novo?

Respondi afirmativamente enquanto estendia a mão direita para cumprimentá-lo.

– Vamos ver se vai durar mais do que o último. – Comentou desdenhando meu gesto.

Às 22h estava no meu posto, ao lado do portão principal, vigiando o nada do lado de fora. A rua estava deserta e silenciosa. A única iluminação existente provinha das luzes da fábrica e de raros postes com lâmpadas fracas, cujo brilhos mal chagavam ao chão. No quarteirão da frente não existia nada além de um terreno baldio abandonado. E do meu lado da rua, o muro interminável e solitário do estabelecimento de que eu deveria tomar conta.

Os minutos se arrastavam sem nenhum movimento. Tudo o que ouvia eram os passos e o assovio de Antônio cantarolando algo do outro lado do portão. A noite estava gelada e eu podia ver minha respiração condensar e se misturar com o restante da nevoa fina que envolvia a rua.

Era por volta da meia noite quando ouvi passos rápidos vindo em minha direção e me despertando de um cochilo. Prontamente levantei minha lanterna em direção ao som e me deparei com dois olhos amarelos movendo-se rapidamente ao meu encontro. Saltei assustado do banco onde me encontrava e demorei alguns instantes para entender que se tratava de um grande cão, negro como a escuridão da rua. Levei a mão até meu cassetete preso no cinto, mas o animal apenas atravessou a minha frente sem sequer me olhar. Continuei acompanhando seu caminho com a luz da lanterna até vê-lo sentar-se ao lado de a uma estranha e silenciosa figura parada à luz fraca de um dos postes, há uns 20 metros de onde eu estava.

Minha visão a distância estava ficando péssima, mas consegui distinguir uma velha senhora encurvada, envolvida por um cobertor encardido e pela nevoa fina. Tanto ela como o cão permaneceram imóveis, apenas olhando na minha direção.

Senti um calafrio percorrer meu corpo. O que aquela idosa fazia na rua, a uma hora dessas, nesse frio e no meio do nada? Estaria perdida? Idosos as vezes se perdem. Achei melhor averiguar se estaria precisando de ajuda, mas a voz de Antônio me sobressaltou:

– Não se aproxime dela! Finja que não a está vendo.

Ele me avisava por uma pequena fresta aberta do portão principal. Não se atrevia a colocar a cabeça para fora. O encarei sem entender:

– O que?! Do que você está falando? É uma senhorinha perdida. Deve estar precisando de ajuda.

– Não está. Não se aproxime, não fale com ela. E principalmente, não a toque!

– Mas isso não faz o menor sentido!

– Já te avisei. Fiz a minha parte!

Antônio fechou o portão com um estrondo. Voltei a olhar para a senhora mal iluminada, que não havia se mexido. Continuava estática, me olhando. Ela e o cão negro. Senti minha nuca se arrepiar. Ficamos nos encarando por um momento.

– A senhora está bem? Precisa de ajuda?

Gritei sem sair de onde estava. Nenhum movimento em resposta. Uma estátua viva no meio da nevoa gelada. Me sentei no banco desconfortável, sem desviar o olhar daquela visão medonha. Tinha a sensação de que o cão me atacaria se me distraísse. Então passaria o resto do turno vigiando aquelas duas criaturas.

Fui acordado pelos primeiros raios de sol da manhã. Imediatamente me levantei assustado, procurando minha lanterna caída no chão. O local onde a senhora estava encontrava-se vazio agora.

Iniciei o turno seguinte mal me lembrando do sinistro encontro. Tudo estava muito distante na minha mente, como a lembrança de um sonho que vai se apagando ao longo do dia. Antônio continuava de poucas palavras e não mencionou o ocorrido. Acabei me convencendo de que realmente tinha sonhado.

Mas exatamente à meia-noite, os passos rápidos e os olhos amarelos reapareceram na escuridão. O cão negro passou na minha frente e se juntou novamente à senhora curvada, postada exatamente no mesmo lugar. E os dois permaneceram imóveis me olhando através da nevoa. Era inquietante.

Bati com a lanterna no portão de ferro:

 – Antônio! Antônio!

Ele abriu a fresta novamente, evidenciando apenas seus olhos castanhos.

– Ela voltou.

– Ela volta todas as noites.

– Quem é ela? O que ela quer? É alguma estratégia de assalto? – Perguntava sem desviar o olhar das duas criaturas.

– Ela tem fome.

– Então vamos dar comida para ela!

– Ela está caçando.

– Antônio, deixe de ser ridículo! Me conte de uma vez o que está acontecendo aqui!

– Ela não pode se aproximar. Só terá acesso ao que deseja se você deixar. Por isso, não toque nela! – E fechou o portão com violência.

Tive o impulso de ir até onde a velha estava e entender de uma vez o que ela queria, mas o cão me dava arrepios. Fiquei receoso de ser atacado. Então, mais uma vez me sentei no banco e passei a noite vigiando e sendo vigiado, até o dia amanhecer e a luz do sol transformar tudo em uma lembrança confusa e longínqua.

Na terceira noite cheguei na fábrica irritado. Sentia que aquela velha estava me fazendo de idiota. Com certeza deveria fazer parte de alguma gangue que tentava me distrair para que pudessem ter acesso à fábrica. E eu não estava disposto a deixar isso acontecer. Iria honrar o meu trabalho.

Então estava decidido a terminar com aquela encenação. O frio estava mais feroz, com ventos cortantes, e a escuridão mais profunda, como uma massa negra e amorfa que tomava conta de tudo. Como um relógio cronometrado, o cão negro passou novamente por mim à meia-noite e se posicionou ao lado da idosa. Olhei para ambos por um momento, enquanto decidia o que fazer.

Tirei meu cassetete do cinto e me aproximei lentamente. Estava preparado caso seus comparsas resolvessem pular da escuridão.

– A senhora está bem? Precisa de ajuda?

Como esperava, não obtive resposta. Continuei avançando, prestando atenção nos movimentos da besta negra. Parei de frente para a mulher. Tinha profundas rugas na pele amarelada e flácida, que parecia escorrer pelo rosto. Cheirava a algo podre, como carne estragada, o que me fez proteger o nariz com a gola do casaco. E não desviava seu olhar do meu.

– Senhora? A senhora está me ouvindo?

Nenhum movimento. Nenhum bandido saiu de seu esconderijo. De onde estava, mal enxergava o portão da fábrica. A luz da lanterna não conseguia iluminar mais de 1 metro a minha frente. A escuridão parecia sólida. E o silêncio era sepulcral. Só ouvia a minha respiração ofegante e o meu coração disparado. Sentia que estava suando apesar do frio.

Continuei encarando a velha, que sustentava o seu olhar sem titubear. Por impulso, levei minha mão direita ao seu ombro desnudo. Milímetros antes de meus dedos encostarem em sua pele pegajosa, pude sentir uma respiração quente bem próxima ao meu pescoço. O cheiro me deu náuseas, era o bafo da morte. Não tive coragem de olhar, mas podia jurar que o cão não estava mais sentado pacificamente ao lado da mulher. De alguma maneira sabia que era a besta negra atrás de mim, sedenta pela minha alma.

Entrei em pânico e saí correndo e gritando pela escuridão. Não fazia ideia de onde estava indo, só precisava sair dali. E foi quando, dois faróis quebraram o negrume à minha volta e me cegaram. Já estavam perto demais e não tive tempo de fazer nada. O impacto foi estrondoso e pude sentir meus ossos se quebrarem antes mesmo de aterrissar alguns metros à frente, novamente próximo àqueles seres indefiníveis.

Tudo estava turvo e desfocado. Senti que a consciência se esvaia de mim, assim como o líquido morno que me rodeava. A última imagem que consegui registrar foram as duas criaturas bestiais paradas no mesmo lugar. Embaixo do poste mal iluminado, estáticos, olhando para mim.

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