Deu tudo certo

Luciana foi uma das minhas primeiras pacientes após o término da residência médica. Acompanho seu caso há dois anos. Uma luta silenciosa contra uma doença horrível. A qual vem perdendo batalha após batalha.

Desde o diagnóstico o quadro mostrou-se complicado. A leucemia tinha um comportamento agressivo, resistente a todas as quimioterapias que estavam disponíveis. Fui obrigada a deixar muito claro o prognóstico ruim que enfrentávamos. As chances eram mínimas. Mas Luciana nunca desanimou: sempre encarou seus obstáculos como algo tão pequeno e passageiro, deixando-me na dúvida se realmente entendia o que estava acontecendo.

Talvez fosse a minha inexperiência, ou o fato de termos idades semelhantes, ou mesmo a proximidade que surgiu entre nós nesses dois anos de convivência intensa, mas não conseguia enxergar nela uma paciente com o distanciamento emocional necessário na minha profissão. Trocamos experiências, momentos difíceis, alegrias inusitadas. Às vezes as amizades mais sinceras surgem nas situações menos prováveis.

Agora estou me preparando para comunicar o resultado dos exames após seu transplante de medula óssea. Nosso último recurso. A última arma secreta contra esse inimigo invisível. Encaro a porta do quarto 515 sem coragem de girar a maçaneta. Teria eu o direito de acabar com todas as esperanças? De selar um destino? De enterrar alguém que ainda respirava?

Luciana parece tão pequena afundada em seu leito asséptico. Está muito magra, sem os cabelos, com olhos fundos e sem brilho. Respira com dificuldade, como se cada movimento de seu tórax lhe custasse todas as poucas forças que ainda tem. Mesmo assim, sorri ao me ver. Um sorriso pleno, vívido, que não pertence àquele corpo que se esvai.

Estou ansiosa. Nervosa como na primeira vez em que tive que dar uma má notícia para alguém na faculdade.

– Bom dia, Luciana. Como está se sentindo?

– Como ontem, doutora. Talvez um pouco melhor.

Sorrio carinhosamente, sabendo que ela não está falando a verdade.

– Os resultados dos exames saíram…

– Eles vieram, doutora. – Ela me interrompe.

– Quem?

– Meus irmãos. Eles vieram me ver. Juntos. Não os via juntos há 3 anos.

Acho que os resultados podem esperar. Me sento ao lado do seu leito e deixo que fale.

– Eles estavam brigados todo esse tempo, por um motivo idiota. Mas hoje eles vieram me ver juntos.

– E isso é bom, não é?

– É ótimo! O meu irmão também está doente. – Ela fala pausadamente, ofegante como quem corre uma ladeira acima. – Precisa de um rim novo.

– Eu sinto muito.

– Mas agora eles se abraçaram. Na minha frente. Minha irmã disse que vai doar.

– Isso é fantástico, Luciana!

– É sim… – Uma tosse angustiante interrompe a conversa.

Trocamos sorrisos cúmplices quando o acesso acaba. Dói-me ver aquele rosto envelhecido, aquele corpo consumido. Penso em toda a vida que ela deveria ter pela frente, mas fora arrancada sem piedade. A luta nunca fora justa. Já estava fadada desde o início.

Me sinto impotente, incapaz. Uma profissional que não conseguiu ajudar. Onde foi que falhei? Fiz a quimioterapia correta? Deveria ter optado por outra? Se tivesse feito o procedimento antes? Não ajudei alguém que confiou a vida em mim. Deu tudo errado.

– Luciana, os exames…

Ela segura minha mão e me olha com tranquilidade.

– Eu já sei, doutora. Não se preocupe. O importante é que deu tudo certo.

– Deu tudo certo?

– Sim. Eles se abraçaram. Ela vai doar. Deu tudo certo.

4 comentários em “Deu tudo certo

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  1. Emocionante!
    Sou testemunha do seu excelente trabalho, principalmente realizado com muito amor e competência!
    Sou eternamente grata, por tudo! Sempre! Privilégio poder ter te conhecido…

    Curtido por 1 pessoa

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