Fogos de ano novo

O réveillon de 2021 seria uma comemoração completamente atípica para as quatro amigas. Unidas desde a primeira infância, era muito raro passarem datas comemorativas separadas, principalmente depois que alcançaram a maioridade e, junto com ela, uma maior independência das festas familiares.

Porém, devido a todas as restrições que o ano de 2020 impôs, encontravam-se agora separadas por uma tela de computador. Cada uma em sua casa, com sua família, em seu isolamento. Nada de festas, bebedeiras, sete ondinhas ou beijos da sorte.

Combinaram a reunião virtual às vinte e três horas. Cada uma com seu espumante preparado para o “feliz ano novo”. Enquanto o momento não chegava, relembravam histórias engraçadas de comemorações passadas.

– Vocês lembram do réveillon de 2018? – Recordava-se Laura. – Quando a Bárbara ficou tão bêbada que dormiu toda molhada da água do mar, e depois ficou reclamando que seu colchão estava esfoliante de tanto sal!

– E o de 2019? – Era Alice quem falava. – Quando tivemos que tirar você, Laura, do meio de uma briga e acabamos todas sendo expulsas da balada, antes da meia-noite?

Todas riram com a lembrança.

– Esse será o pior réveillon de todos! – Lamentava-se Barbara, enquanto terminava mais uma taça de espumante.

– Com certeza não será pior do que o último, de 2020. – Daniela disse baixinho, sem a pretensão de que o microfone captasse.

Mas Alice não deixou passar:

– É verdade, Dani. Você nunca contou para gente o que, diabos, aconteceu nesse réveillon!

– Posso dizer que depois dele, não me importo nenhum pouco em estar passando esse em casa.

Foi o suficiente para que todas começassem a falar ao mesmo tempo, pedindo para a amiga contar o que poderia ser pior do que o tédio que estavam vivendo no momento.

– Tudo bem, tudo bem… Eu conto! Já passou mesmo, acho que talvez não precise me envergonhar tanto…

– Ter vergonha da gente? – Laura ria. – Somos suas melhores amigas!

– Tá bom! Tá bom! Vamos lá…

“Como vocês sabem, eu fui passar aquela virada de ano com o Matheus. Já fazia sete meses que estávamos namorando e achamos que seria a oportunidade perfeita para que conhecesse a sua família. Viajamos para casa da sua avó, em Florianópolis. Todos se reuniram lá: tios, primos, sobrinhos.

A casa da avó era enorme. Feita para receber a família toda. O térreo era ocupado por uma ampla sala de estar, com um enorme sofá de veludo bordô aconchegante, duas poltronas de couro preto, e uma imensa e brilhante arvore de Natal, estrategicamente posicionada para ser o centro das atenções. De lá podíamos ver o quintal, com duas mesas de jantar na área da varanda. No andar de cima, cinco suítes receberiam todos os vinte hóspedes.

Chegamos no início da tarde do dia trinta e um. Dividiríamos um quarto com a família da irmã de Matheus. Ela, o marido e seus dois filhos. A casa estava barulhenta e movimentada. Todos estavam muito entusiasmados com a reunião familiar. Pezinhos descalços corriam de um lado para o outro, tirando tudo do lugar e revirando a casa de ponta-cabeça.

 Ao todo havia sete crianças pipocando pela casa, mas elas pareciam se multiplicar e parecer uma verdadeira creche. E todas tinham uma fascinação pela arvore de Natal gigante. Queriam tocá-la, pegar seus enfeites, balançar as lampadinhas coloridas. E esse era o único momento em que a matriarca perdia a cabeça com os bisnetos. Aparentemente, ela compartilhava o mesmo fascínio.

Fui muito bem recebida por todos. Eu era a integrante mais recente da turma, mas me deixaram muito à vontade. Depois de um almoço caprichado, Matheus e eu saímos para dar uma volta pela cidade e comprar alguns itens de uma lista de detalhes que faltavam para a grande festa.

Enquanto meu namorado andava pelos corredores do supermercado concentrado em não esquecer nada da lista, me detive em uma sessão de festas e resolvi comprar um mimo para as crianças. Era um presente simples e barato, mas tinha certeza de que elas adorariam e elevaria o meu conceito de “a nova namorada” para “a namorada que as crianças amaram”.

A noite chegou rápido. A casa estava tão iluminada que ofuscaria os fogos de artificio no céu. Cada janela, e eram muitas, era contornada por uma fileira de luzinhas coloridas, assim como a porta de entrada e, claro, a gigante árvore de Natal. Essa, recebia um reforço especial com três tipos de lâmpadas diferentes, que piscavam incessantemente, deixando a sala parecida com uma pista de dança.

Todos estavam arrumados, perfumados, vestindo roupas novas e brancas. Nos espalhamos pelo quintal, enquanto as mesas eram postas. A quantidade de comida era impressionante! Peixe, porco assado, sopa de lentilha, arroz com amêndoas, torta de romã. O aroma aveludado era tentador e me deixou faminta.

Tudo estava perfeito! Tive uma afinidade muito grande com todos, principalmente com a irmã de Matheus, com quem dividíamos o quarto. Me senti acolhida e estava apaixonada por aquele rapaz, que não me largava nem por um minuto, com medo de que me sentisse deslocada no meio daquela movimentação toda.

Já era quase meia noite, quando todos se armaram com apitos, vuvuzelas, confetes. Estávamos esperando os últimos minutos de 2019 terminarem, quando distribui o meu presente para as crianças: eram aquelas velas “estrelinhas” de bolo de aniversário, que quando acessas soltam faíscas para todos os lados. Contei para elas que estariam segurando pequenas estrelinhas de fogos de artificio, como os que veríamos no céu.

As acendi assim que o coro da contagem regressiva começou. Os pequenos saíram correndo e sacudindo suas estrelinhas.

– Cinco, quatro, três, dois um… Feliz ano novo!!!

Fogos coloridos incendiaram o céu. Matheus me envolveu em um beijo apaixonado que fez minha nuca arrepiar. Todos riam, se abraçavam, brindavam.

Mas as comemorações foram interrompidas por um cheiro negro de queimado que invadiu o ar. Era um odor mais pungente do que o da pólvora dos fogos de artifício. Algo estava errado. De repente as crianças saíram de dentro da sala gritando e chorando. Foi quando vimos: a árvore de Natal gigante e colorida, estava em chamas!

No primeiro momento ficamos todos estáticos tentando entender a informação que nossos olhos nos passavam. Quando a árvore tombou em cima do sofá de veludo bordô, e esse também começou a queimar, foi que todos começaram a correr desesperadamente de um lado para outro.

Mães gritavam tentando proteger as crianças, alguns começaram a encher baldes e jogar água em cima do fogo. Mas tudo só acabou quando a mãe de Matheus apareceu com um extintor de incêndio, extinguindo a chamas e deixando toda a casa envolta em uma névoa branca e química.

Soluços, choros, silêncio. Contemplávamos o esqueleto carbonizado da árvore de Natal que jazia no meio da sala junto com o sofá despedaçado.

– Em nome de Deus! – Gritava a matriarca descontrolada. – Mas o que foi que aconteceu?!

– Foram as estrelinhas… – o menino mais velho soluçava.

– Que estrelinhas?! – Vovó rugia.

– As estrelinhas que a tia deu pra gente…

– Que tia?!

Foi quando todos os pequenos pestinhas apontaram juntos para mim, me delatando.”

Quando Daniela terminou o seu relato, as amigas permaneceram mudas, a encarando pela câmera. E, como um passe de mágica, todas caíram na gargalhada ao mesmo tempo. Ela não sabia se ria junto ou desligava o computador. Acabou optando pela primeira opção.

– Foi por isso que o Matheus terminou com você em janeiro?! – Alice perguntou quando conseguiu se controlar.

– Digamos que eu não fui aprovada pela família dele.

– Essa é a melhor história de réveillon de todos os tempos! – Laura comenta antes de ter outro ataque de riso.

– É… Mas ela ainda não acabou.

– Como assim, não acabou?

– Eu ainda tenho mais duas prestações do sofá novo para pagar. As da árvore terminei no mês passado.

Mais uma vez as quatro amigas caíram na gargalhada. Dessa vez ao som dos fogos de artifício que anunciavam a virada do ano.

– Feliz ano novo! – brindaram juntas.

– Que 2021 seja um ano melhor.

4 comentários em “Fogos de ano novo

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