A decisão

O tempo estava se esgotando. A procrastinação não tinha mais espaço. Ela precisava se decidir. Qualquer um dos caminhos que escolhesse seria tempestuoso e acompanhado de renúncias importantes. Era um animal encurralo em um beco escuro e úmido, onde ninguém poderia ouvir seus pedidos de ajuda.

O café era seu melhor amigo. Forte, quente e amargo. Clareava a mente e diminuía a cefaleia que esmagava seus pensamentos. A chuva batia na vitrine da cafeteria enquanto a espuma da bebida quente girava no sentido horário. Quando ela estacionasse, a decisão já precisava estar tomada.

A dose de arsênico descansava no bolso do casaco. Paciente. Resiliente. Apenas aguardando o seu momento de entrar em cena.

O casamento fora arranjado. A ascensão social da família era mais urgente do que sua felicidade egoísta. Ela era um degrau a ser pisado para que todos avançassem para o próximo patamar da elite parisiense. Era apenas um peão a ser sacrificado antes do xeque – mate.

Só conheceu o marido no momento da cerimônia. Alto, robusto, com o nariz avantajado, mas não era de todo ruim. Talvez ela pudesse se acostumar. Se ambos tentassem a convivência poderia ser suportável. Esperança essa destruída já na noite de núpcias, quando a violência infligida no seu aflorar de mulher, a deixou sangrando por sete dias.

Sabia que deveria agradá-lo e se esforçava. O jantar era do seu gosto e no horário exato, todas as noites. A casa, sempre impecável. Mas se esquecesse de colocar as pantufas ao lado de sua poltrona de descanso, teria o nariz quebrado pela quarta vez.

Aos poucos foi se conformando com o seu novo status social: esposa de um marquês influente. Um objeto de luxo que deveria servir ao seu senhor e ser um depósito de esperma. E tudo piorou depois que ele passou a desejar um herdeiro. Ela não conseguia engravidar. E todo mês, uma surra destruía seu corpo e seu espírito quando a menstruação chegava.

Foi uma das enfermeiras do hospital que trouxe a solução. Era a terceira visita naquele mês ao pronto atendimento. Afinal, ela era uma mulher muito aérea, e vivia desequilibrando-se e machucando-se por distração. Mas, aquela senhora, com olhar experiente por detrás dos óculos, colocou o frasco em seu bolso enquanto terminava o curativo em seu braço direito.

– Tem quantidade suficiente para matar um homem grande. Misture na sua sopa, ou no seu vinho. Ele não vai perceber.

Desde então, aquele frasco virou parte de seu corpo. Não desgruda dele. Já teve várias oportunidades de despejá-lo, mas seu medo não permitiu. Ela poderia aguentar mais um pouco. Talvez houvesse outra saída. Se alguém desconfiasse, ela e toda sua família iriam para o cadafalso.

Mas agora, o tempo para decidir estava acabando. A barriga logo apareceria. E ela não podia nem pensar nas promessas hediondas que o marido fez se ela não lhe desse um menino. Isso precisava acabar hoje.

A espuma do café diminui a velocidade, até parar. Esse era o momento. Teria que decidir e não voltar atrás.

Com as mãos tremulas, retirou o frasco transparente do bolso. O apertava com tanta força, que quase quebrou o vidro. Despejou seu conteúdo no café e o misturou novamente, apressada, antes que o marido monstruoso voltasse para a mesa. Agora não haveria mais volta. Gastou sua única arma.

Segurou a xicara com as duas mãos e sentiu seu aroma de liberdade. Sorrindo saboreou sem pressa, aliviada. A decisão fora tomada.

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