Aconteceu em agosto/22

O universo de Sophia

Em agosto aconteceu a revelação da tão esperada e solicitada capa e da sinopse do Volume II da trilogia “As cores de Sophia”, intitulado “Cores das Chamas e da Escuridão”.

Você viu?

Sinopse:

Sophia percebe que sua vida jamais será a mesma: sua mente intrigante desperta interesses perigosos. Ela procura, então, manter-se protegida pelo anonimato.

Enquanto tenta dominar as novas e poderosas habilidades nascidas das chamas, Bia inicia uma investigação arriscada à procura das pontas soltas não encontradas pela polícia.

Por mais que queira evitar, Sophia é obrigada a encarar o desafio da nova realidade que se abre aos seus olhos. Para isso terá que enfrentar as suas escolhas, o passado, e a escuridão que cresce dentro dela mesma – onde tem mais alguém querendo entrar.

Finalizada.

Em agosto foi finalizada a revisão final do miolo do livro. Isso nos coloca na reta final para o lançamento!

Ansiosos?

Entrevista

Fui entrevistado pelo Mauro Plastina, em seu canal do YouTube: Tellers escola de escrita. Foi um bate papo descontraído e divertido sobre escrita e meu processo criativo.

Perdeu?

Não tem problema, é só clicar em https://www.youtube.com/watch?v=n1PTS0XEbHY e conferir!

Fica a dica para conhecerem o canal, recheado de dicas para quem gosta de escrever.

Divulgação honrosa

“Cores de Vida e de Morte” teve a honra de ser divulgada pelo professor e pesquisador de Literatura Fantástica, Alexander Meireles da Silva, em seu canal Fanfasticurso.

O Prof. Alexander é um grande entusiasta sobre o gênero literário, e tem um currículo de peso:

Professor Associado de Literaturas de Língua Inglesa da Universidade Federal de Catalão (UFCat)

Doutor em Literatura Comparada (UFRJ)

Mestre em Literaturas de Língua Inglesa (UERJ)

Especialista em Educação a Distância (SENAC)

Criador de conteúdo do canal FANTASTICURSOS

Por isso, ouvi-lo dizendo: “Juliana Lino vem se revelando um dos grandes nomes do fantástico nacional.” é muito mais do que um elogio e me faz acreditar no potencial das minhas histórias!

Se você também gosta do universo fantástico, em todas as suas vertentes, não deixe de conhecer o Fantasticursos: o melhor canal do gênero da web.

https://www.youtube.com/c/Fantasticursos

Dicas de escrita que rolaram no Instagram

Leitura finalizada

“Nossa parte da noite” – Mariana Enriquez

Um livro incrível, com uma trama sobrenatural hipnotizante, ao mesmo tempo que retrata a ditadura na Argentina. A autora tem um incrível domínio de uma narrativa complexa: a estrutura é fragmentada, o tempo não é linear e há mais de um narrador.

O fantástico é introduzido como mágica. Mariana nos dá migalhas da revelação do mistério, puxando o leitor para tramas cada vez mais profundas, das quais é impossível sair sem ter todas as respostas. Fantástico e realidade se misturam de maneira definitiva.

Super recomendo a leitura!

Em outubro

Acontecerá o tão esperado lançamento de “Cores das Chamas e da Escuridão”, o segundo volume da trilogia “As cores de Sophia”!

Teremos eventos virtual e presencial!

Fiquem ligados! Acompanhem as novidades em tempo real pelo Instagram, para não perderem nada!

Você me acompanha nessa viagem fantástica?

https://livro.editoramadreperola.com/as-cores-de-sophia

Até a próxima News!

Com carinho

Juliana Lino

Aconteceu em julho/22

Evento

Em julho/22 aconteceu o relançamento de “Cores de vida e de Morte”, o primeiro volume da trilogia “As cores de Sophia”, agora pela editora Madrepérola.

https://www.instagram.com/p/Cfw_PD8D91x/

Tivemos uma live muito descontraída com o editor Rafael Silvaro, onde sorteamos um exemplar autografado entre as perguntas mais criativas realizadas ao vivo. A vencedora sortuda foi a Cris Veríssimo.

Perdeu? É só clicar no link para conferir!

https://www.instagram.com/p/CfxOC9cDrR6/

Em 9/7/22 aconteceu o relançamento oficial, na Bienal de SP!

O evento estava lotado, mas recebi os leitores com muito carinho no stand da ABERST, onde autografei os exemplares, troquei ideias, resisti a dar spoilers sobre a continuação e tiramos muitas fotos.

Dica: Você conhece a ARBEST (Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror)?

Se você é leitor ou escritor do gênero, fica a dica! São muitos talentos renuídos lá.

https://aberst.com.br/

Dicas de escrita que rolaram no Instagram https://www.instagram.com/juliana._lino/

Vamos exercitar a nossa criatividade?

Dicas para escolher um bom título

Vantagens da leitura coletiva

Data comemorativa

25/7 – Dia nacional do escritor.

Frase mais curtida do mês:

Meme vencedor:

Tivemos um empate técnico:

Leitura finalizada:

“O nome da Rosa” – Umberto Eco.

Opnião: uma aula de história sobre a Idade Média. Mostra como a ganância e o abuso de poder são atemporais. Identifica a linha tênue entre a fé e o fanatismo e como os livros são vistos como objetos de poder – o conhecimento que liberta. E por isso mesmo são perigosos e devem ter o seu acesso limitado. Será que evoluímos realmente o quanto acreditamos?

Em agosto:

Anote na agenda!

Dia 15/8/22, às 20h, participarei de uma entrevista no https://www.youtube.com/c/TellersEscoladeEscrita

Não perca!

Expectativa dos bastidores:

– Finalização da capa e do projeto gráfico do segundo volume da trilogia: “Cores das Chamas e da Escuridão”.

– Início da escrita da primeira versão do original do terceiro volume.

Você me acompanha nessa viagem fantástica?

https://livro.editoramadreperola.com/as-cores-de-sophia

Até a próxima News!

Com carinho.

Juliana Lino.

A trajetória de Sophia

Sophia apareceu pronta no meu imaginário, em um momento em que escrever um livro nem me passava pela cabeça. Eu estava presa no trânsito, na Avenida Rebouças em São Paulo, desesperada para conseguir chegar no horário para atender os pacientes do consultório. Mas eu não tinha para onde ir: os carros não saiam do lugar. Então minha mente divagava, ela sim, livre.

Assim, a ideia surgiu: e se existisse uma garota que conseguisse enxergar cores nas pupilas das pessoas? Seu nome seria Sophia. Mas o que significariam essas cores? O que aconteceria com ela?

O trânsito andou antes que eu percebesse que criava uma personagem. A ideia foi guardada em algum lugar do meu inconsciente, e a vida seguiu. Porém, em todos os outros momentos aprisionada na mesma situação, ela voltava. Sophia ia ficando cada vez mais nítida: seu rosto, o cabelo, o porte físico. Aos poucos visualizava sua personalidade, sua moral, gostos, medos. Ela se transformava em uma pessoa quase real. Mas eu ainda não entendia o que eu deveria fazer com ela.

Um tempo depois, atravessei um período de vida delicado, e precisei me agarrar em algo para não afundar. Pensei: vou escrever um livro. E Sophia me invadiu imediatamente. Até então, eu era apenas uma leitora. Nunca tinha estudado sobre escrita criativa, ou técnicas de criação de romance. Mas eu precisava de uma fuga. E ninguém nunca iria ler. Certo?

Então, liguei o computador, olhei para a página em branco, e entendi que a Sophia era a minha protagonista. Ok. Mas qual era a sua história? Eu não tinha a mínima ideia. Resolvi que apenas a deixaria viver, fluir para as páginas, e ver o que acontecia.

Para a minha surpresa, a história surgiu. Sem nenhum planejamento prévio, sem ter a mínima noção sobre o enredo, sem programar os outros personagens, o conflito, o final… Meu primeiro romance nasceu em 4 meses, com mais de 500 páginas.

Isso aconteceu em 2014. Quando terminei, o que eu já sabia que seria o primeiro volume de uma trilogia, eu virei mãe. O foco da minha vida mudou completamente, e Sophia foi engavetada e esquecida.

Chegamos em 2020, no auge da pandemia, quando tudo era incerto e amedrontador. Eu precisava continuar trabalhando, cuidando dos pacientes, me expondo ao risco de me contaminar e levar o vírus para casa. O estresse era massacrante e não tínhamos a menor ideia de quanto tempo iria durar. Comecei a sentir a mesma necessidade de fuga, que experimentei em 2014. Então, me lembrei da Sophia.

Achei o computador velho, enterrado no baú embaixo da cama. Ele ainda ligava! Encontrei o original. Reli. Salvei na nuvem. Encarei a tela: eu tenho um livro inteiro escrito. E se alguém quisesse ler? Preciso fazer algo com ele.

Os cursos de escrita criativa me ajudaram a não enlouquecer nesse período tão crítico para toda a humanidade. Li livros técnicos, conheci professores e outros autores. Entendi que precisava revisar e cortar. Como doeu cortar passagens da minha história: ao todo, foram 150 páginas. Trabalhei por mais quatro meses e cheguei na melhor versão que conseguiria sozinha. Precisava agora de um olhar profissional.

Navegando por esse novo mundo literário, conheci o Sandro Bier do canal “Café do escritor”. Um editor dedicado à publicação de autores independentes e que oferecia o serviço de leitura crítica. Mandei o meu original para ele.

Fiquei surpresa com a qualidade da sua avaliação, e ele, com o que encontrou:

Decidimos então publicar o livro pelo selo editorial “Página Nova”, a prestadora de serviço que ele fundou para tornar alcançável o sonho da publicação para inúmeros escritores. Assim surgia a trilogia “As cores de Sophia”, com o seu primeiro volume, “Cores de Vida e de Morte”.

O livro ficou disponível na versão física e digital, e para a minha surpresa, foi um sucesso!

A história conquistou inúmeros leitores, ganhando resenhas, feedbacks, avaliações na Amazon, entrevistas televisivas e na mídia impressa. Isso era o sucesso que almejava: leitores! Era tudo o que eu desejava – pessoas que me dessem a oportunidade de ser lida, de deixar a Sophia viver. Não sonhava com flashes, autógrafos, fama, prêmios, Academia Brasileira de Letras. Eu só queira ser lida.

Descobri que para isso, além de escrever, era necessário divulgar. Tive que aprender sobre marketing e me debruçar sobre as redes sociais, trabalhando com os recursos que eu tinha.

O universo conspirou ao meu favor: fez minha história chegar até uma leitora especial, a Cris Veríssimo, que se apaixonou pelo meu universo. Como profissional do marketing, especialista em escritores, me ajudou a impulsionar a Sophia para além dos meus escassos conhecimentos na área.

E aí, veio a minha primeira premiação: “Cores de Vida e de Morte” foi eleito pelo júri e pelo público o melhor suspense de 2021 pelo Prêmio Book Brasil! Algo que nunca, jamais, em momento algum eu havia pensado. Nem em 2014, quando eu nem sabia escrever um romance, nem depois de tê-lo publicado.

Pouco tempo depois, o Rafael Silvaro, editor da Madrepérola, me convidou para publicar a trilogia inteira da Sophia, de maneira tradicional, pela sua editora. E isso, foi uma conquista muito além do que eu havia imaginado, pois quando decidi publicar a história, nem me passou pela cabeça fazer isso por uma publicação tradicional. Eu não queria esperar meses no silêncio para entender que alguma editora não tinha aprovado, ou pelo menos, lido o meu original. Sabia que existiam muitos autores mais conhecidos para que elas investissem seus recursos. Sempre fui muito realista quanto essa expectativa.

Contudo, o Rafael enxergou o meu trabalho no meio dessa multidão. Gostou, e acreditou nele.

Então, relançamos “Cores de Vida e de Morte” na Bienal de São Paulo, de 2022. O livro ficou impecável! E já temos uma linha editorial para compor a trilogia toda.

O volume dois, “Cores das Chamas e da Escuridão”, já está finalizado, e passa pelos processos finais de edição. Tem o lançamento previsto para o segundo semestre de 20022. A minha maior satisfação é ver a expectativa dos leitores, para a tão aguardada continuação da história. Fato que eu nunca imaginaria, quando aquela garota que enxergava cores ganhou a minha imaginação no meio do trânsito da Avenida Rebouças.

E para os mais curiosos: estou iniciando a escrita do volume três. Para finalizar com chave de ouro essa trilogia fantástica.

Se você ainda não conhece, fica aqui o convite para mergulhar na história fantástica de “As Cores de Sophia”. Tenho certeza de que nunca mais enxergará a realidade da mesma maneira.

É só clicar no link abaixo e deixar o meu universo se misturar ao seu! https://livro.editoramadreperola.com/as-cores-de-sophia

“Escrever um livro é aceitar o desafio de controlar o transbordar da mente, é transformar a represa em rio, cuja forma e sentido irão depender de quem beber da sua água.”

Jorge Luís Marujo

Insônia

Tudo começou há um ano: 12/03/2018 – foi a última noite em que Marcos dormiu. A insônia chegou sorrateira, silenciosa. No início, nem mesmo se deu conta. Acordava cada vez mais cedo, sem jamais conseguir voltar a dormir. A cada noite, o tempo de sono encolhia, minguava. Até que por fim, simplesmente não dormia mais.

Os primeiros dias foram difíceis. Quando ainda conseguia dormir por algumas horas, os dias que se seguiam a essas noites interrompidas eram terríveis! Sentia-se exausto, sem capacidade para pensar ou se concentrar, irritado, com uma dor de cabeça arrebatadora. Pensou ter algumas alucinações e perdeu dois empregos por falta de produtividade.

Mas, quando o sono realmente desapareceu, ele simplesmente deixou de fazer falta. Os dias eram suaves como as noites. O cérebro pareceu voltar a funcionar de uma maneira impressionante, como um funcionário descansado depois das férias. Era capaz de raciocinar novamente, pensar, ter ideias. E, diferente de todas as outras pessoas, usufruía das vinte e quatro horas inteiras dos dias. Não desperdiçava mais nem um minuto dormindo. O que, claro, o impeliu na sua carreira, já que nunca mais teve problemas com prazos e produtividade.

Acompanhando sua nova condição inusitada, Marcos notou uma capacidade diferente. Algo acontecia dentro do seu cérebro insone quando tocava em alguém: ele os ouvia. Cada primeiro contato com outro ser humano era uma confissão. Bastava as peles se encostarem para as vozes invadirem sua mente revelando o segredo mais sombrio daquela pessoa.

Inicialmente não soube como agir. Não queira ser internado em um hospital psiquiátrico e simplesmente não era capaz de efetivamente intervir na vida de todos que cruzavam seu caminho e revelavam suas falcatruas, roubos, traições. Acabou aceitando que essa era apenas uma apresentação, como o nome de alguém. Não podia consertar o mundo. Mas sentia-se cada vez mais enojado e isolado de outros seres humanos.

Em uma tarde, foi apresentado para seu novo colega de trabalho no escritório de arquitetura:

– Marcos, esse é Alexandre. Ele vai integrar a sua equipe para o projeto do novo condomínio residencial em que estamos trabalhando. – Informou o chefe.

Os dois homens apertaram as mãos firmemente e um arrepio percorreu a espinha de Marcos: “Eu vou matar a minha esposa.” – foi sussurrado no fundo da sua mente. Não teve reação. O que poderia dizer? O que poderia fazer?

Limitou-se a fingir que nada havia ouvido, como de costume, e explicou o projeto em questão para o novo colega.

Nos dias que se sucederam, aquela confissão permanecia ressoando em seus ouvidos. E se fosse verdade? Caberia a ele fazer algo a respeito? Marcos passava as noites insones caminhando pelo seu apartamento, como um animal enjaulado, procurando uma solução. Amaldiçoou sua condição infinitas vezes, desejando nunca ter ouvido nada.

Decidiu, por fim, se aproximar de Alexandre. Aprofundar a relação de coleguismo, e quem sabe assim, conhecer sua esposa. De alguma maneira conseguir avisá-la.

– Vamos passar no happy hour do Bar do Juarez depois do expediente? – convidou certo dia – O pessoal de escritório costuma ir sempre lá.

– Acho uma ótima ideia, Marcos.  – Alexandre respondeu sorrindo. – Estou precisando de uma gelada!

A partir dessa primeira vez, as esticadas após o trabalho tornaram-se frequentes. Entre um chope e outro, com o gosto citrino e gelado na garganta e o odor convidativo dos aperitivos, a conversa corria mais fluída e descontraída. Alexandre parecia ser uma pessoa correta e divertida, não um assassino em potencial. A cada encontro as gargalhadas tornavam-se mais verdadeiras, e Marcos passou a desfrutar de sua amizade com sinceridade enterrando aquela terrível frase por baixo de outras memórias indesejadas.

– Nesse final de semana farei um churrasco lá em casa, Marcos. Para comemorar meu aniversário. Gostaria que você fosse.

Marcos aceitou o convite despretensiosamente. Já não pensava mais em seu plano inicial, mas talvez essa fosse uma boa oportunidade para conhecer a esposa de Alexandre e avaliar se havia algo de estranho entre os dois.

Alexandre morava em uma casa simples, mas bem cuidada em um bairro de classe média. A casa térrea dispunha de um quintal espaçoso, de onde uma churrasqueira de tijolos a mostra expelia fumaça das suas entranhas com cheiro de carne defumada. O odor conhecido, misturado ao som estalado de latinhas sendo abertas, fez o estômago de Marcos acordar.

Vozes, risadas e música espalhavam-se pelo ar. Saudoso, Marcos se deu conta de que, desde que deixou de dormir e passou a ouvir demais, nunca mais esteve em um evento social, onde pessoas normais se divertiam. E ele seria condenado a ouvir seus segredos monstruosos cada vez que fosse tocado.

Enquanto conversava com outros colegas do escritório, Alexandre chamou às suas costas:

– Marcos, quero te apresentar a minha esposa…

Marcos congelou quando viu a linda morena estendendo-lhe a mão direita. A moça tinha um sorriso escondido nos cantos dos lábios e o olhar surpreso. Ele aceitou o cumprimento, e no momento em que suas mãos se tocaram ouviu seu pior segredo: “Eu fiz um aborto quando tinha quinze anos”. Mas ele já sabia disso. O filho era seu.

Por um momento, ficaram congelados, encarando os rostos um do outro. Tão familiares e ao mesmo tempo tão mudados. Mais maduros, mais marcados. Mais vividos.

– Vocês se conheciam?! – Perguntou Alexandre surpreso.

– Cara, você não vai acreditar… – Marcos respondeu tentando parecer espontâneo. – Mas estudamos juntos na adolescência.

Alexandre respondeu com uma gargalhada:

– Esse mundo é muito pequeno mesmo!

Marcos e Graziela trocaram algumas tímidas palavras desconfortáveis: “Quanto tempo!”; “Por onde andou?”; “O que tem feito?”; “Você não mudou nada.”

Depois desse reencontro inusitado, um desconforto pungente espetava insistentemente a consciência de Marcos. E se Alexandre realmente fosse capaz de fazer algo tão terrível? O fato de conhecer Graziela, de já ter se apaixonado por ela, mesmo que há tanto tempo, tornava tudo mais real. Mais palpável. E mais aterrorizante.

Passou o resto da festa observando os dois: um casal de longa data normal – íntimos o suficiente para conversarem com os olhares; carinhosos, mas não fervorosos, nos toques; provocativos e cúmplices durante as conversas. Sentiu uma pequena ferroada de ciúmes. Repreendeu-se, sentindo-se ridículo em seguida.

Os dias que se seguiram depois da festa foram torturantes. Marcos ficou paranoico, obsessivo com a ideia terrível de que Graziela seria morta pelo próprio marido. As noites longas em vigília, antes tão produtivas e acolhedoras, se tornaram insuportáveis. Apenas aguardava os minutos se arrastarem, enquanto andava em círculos esperando a notícia chegar.

Certa tarde não se conteve. Fingiu um mal-estar qualquer no trabalho para sair mais cedo. Sabia a hora exata em que Alexandre iria para casa, teria tempo suficiente para conseguir conversar com Graziela. Tentar convencê-la de que corria perigo, sem soar como um completo lunático.

Graziela atendeu a porta no primeiro toque. Parecia despertada de algum trabalho que exigia muita concentração. Seus olhos negros sorriram ao ver Marcos, por detrás das lentes transparentes dos seus óculos de leitura.

– Estava esperando você. – Disse enquanto dava espaço para que entrasse.

Marcos adentrou na sala de estar aconchegante. Avaliava um quadro de fotos enquanto Graziela trancava a porta novamente.

– Graziela, eu preciso te contar uma coisa. Eu sei que vai parecer muito estranho, mas preciso que me escute até o final e…

Foi interrompido pelo dedo indicador dela pousado sobre os seus lábios, ordenando que fizesse silêncio.

– Eu achei que nunca mais veria você. – Ela sussurrou com o hálito quente e doce no seu ouvido.

Sem dizer mais nada, Graziela o beijou. As bocas se devoravam e tentavam sorver cada instante dos últimos vinte e cinco anos que os separaram. Mãos trêmulas percorriam os corpos ofegantes, enquanto os dois corações galopavam e se misturavam dentro do mesmo peito. Em um lapso de realidade estavam com as peles eriçadas e emaranhadas sobre o chão da sala. Dois corpos que se condensavam tentando ocupar o mesmo ponto no espaço.

O primeiro tiro soou distante, como em um sonho. Marcos só percebeu que algo estava errado quando o rijo corpo de Graziela pareceu desintegrar-se em cima do seu, enquanto um líquido quente envolvia ambos.

Desviou o olhar para cima a tempo de ver Alexandre parado ao seu lado, mirando o revólver em sua direção. O cheiro salgado de pólvora queimada invadia suas narinas. Não teve tempo para dizer nada antes de escutar o próximo disparo e visualizar a explosão que acontecia dentro do cano frio apontado para o seu olho.

– Não!!!

Marcos acordou suado, ofegante e desorientado. Demorou para reconhecer o seu quarto, a sua cama, os seus lençóis.

– Eu dormi?! Mas faz mais de um ano que não durmo!

Nesse momento o despertador do celular começou a tocar. Pegando o aparelho com as mãos trêmulas, verificou a hora: seis horas da manhã do dia 12/3/2018. Ficou confuso tentando entender o que aquilo significava.

– Foi tudo um sonho! Eu dormi! Durmo todos os dias como uma pessoa normal. Não tenho insônia. Graças a Deus!

Ficou mais alguns minutos verificando a data no aparelho para se certificar do que estava vendo. Nunca sentira tanto alívio na vida! Nunca fora tão grato por uma noite de sono.

Naquela manhã estava com especial bom humor. Chegou cedo ao escritório de arquitetura e contagiou toda a equipe. Sentia uma necessidade urgente de trabalhar, de se concentrar em alguma coisa para assim desfazer por completo todo aquele sonho maluco que ainda rodeava a sua mente.

Foi interrompido pela voz do chefe:

– Marcos, gostaria de te apresentar o novo membro da nossa equipe.

Ele largou o lápis sobre a prancheta, criando coragem para encarar o recém-chegado. O chefe continuou:

– Esse é o Alexandre. Ele vai integrar o projeto do condomínio de casas residenciais que você está gerenciando.

Sem opção, Marcos encarou seu novo colega de trabalho. Era ele. Alexandre tinha um sorriso receptivo e a mão direita estendida para um cumprimento. Mas Marcos não a aceitou. Ficou com medo do que descobriria se tocasse em sua pele.

Teve certeza de que não conseguiria dormir naquela noite.

A nova versão da escritora

Através de uma série de reflexões, realizamos juntos, aqui no blog, uma viagem pelo meu mundo particular da escrita. Começamos lá na minha infância, com “Sementinha de escritora” e passamos pelos anos que me firmaram como leitora, no “A essência do escritor”. Deparamo-nos com o momento delicado da minha vida que despertou novamente a escrita em mim em “O renascimento da escrita” e finalmente conhecemos o início do processo de evolução e conscientização da escrita em “O amadurecimento da escritora”.

Nesse último texto, contei como descobri a necessidade da revisão e reescrita do meu primeiro romance. Mostrei como, apesar de doloroso, o corte de cenas, capítulos e personagens, foi necessário para chegar à essência de história e deixá-la mais coesa. Ao final desse processo longo e penoso, entreguei minha obra para uma leitura crítica.

Mas eu não poderia ficar apenas aguardando o resultado dessa avaliação. Do que adiantaria ter o livro pronto em mãos, se não houvesse ninguém para lê-lo? E como as pessoas poderiam descobrir a sua existência e escolhê-lo entre o mar de opções? Eu precisava encontrar meu público leitor. Contar para ele que a minha escrita existia e que ele deveria experimentá-la. Que ela poderia ser interessante.

Para isso, precisei de coragem: me despir e tornar público alguns textos. Perder o medo de ser lida, criticada e, talvez, admirada. Mas, até então, minha produção se resumia a um romance. O que eu teria para mostrar? Para oferecer como degustação?

Após realizar mais algumas pesquisas e cursos, descobri que os contos poderiam ser uma boa opção para minha apresentação como escritora. Com isso, tive a ideia de criar esse blog, o Viajando nas ideias, para que ele fosse o cartão de visitas da minha produção literária. Aqui os leitores poderiam conhecer o meu estilo, os gêneros em que me sinto mais à vontade, e acompanhar minha evolução como escritora e o amadurecimento dos meus textos.

O maior desafio era: eu nunca escrevera contos antes. Eu não era habituada a ler contos. Sempre preferi os romances: narrativas mais longas, que nos dão a oportunidade de um envolvimento maior com a trama e os personagens, por mais tempo. Passei a vida toda lendo romances então, escrever um me pareceu extremamente natural.

Para encarar esse desafio, passei a ler coletâneas de contos de grandes autores (Edgar Allan Poe, Cortaza, Maupassand, Borges, Hemingway, Tchekhov, Machado de Assis) e mergulhei em um mundo, até então, completamente desconhecido.

Orientada por diversos cursos de qualidade, aprendi que a estrutura de um conto é completamente diferente de um romance. A narrativa curta deve ter menos personagens, poucos detalhamentos e descrições, se ater a uma situação. Precisa ser coeso, ter ritmo, e gerar o maior impacto possível. Através dos mínimos meios, gerar o máximo de efeito.

Estava habituada a desenvolver uma situação, para gerar o ambiente propício para história. Trabalhar nas camadas e desenvolvimento do arco de mudança do personagem. Estruturar o arco narrativo para evolução da trama. Cuidar da verossimilhança. E agora, eu teria que fazer algo completamente diferente.

Foi muito mais difícil escrever meu primeiro conto do que meu primeiro romance.

Depois de algumas tentativas fracassadas, finalmente cheguei a um texto que, aparentemente, era um conto decente. Por fim, criei coragem e o compartilhei em um grupo de escritores do qual participo. Para minha surpresa, foi muito bem aceito e elogiado. Foi o estímulo que precisava para finalmente publicar e colocar o blog no ar. Esse conto é “O médico e bêbado” que está entre as primeiras postagens daqui do blog e já foi publicado pela revista Paranhana Literário.

Aos poucos esse novo gênero de escrita nasceu em mim e encontrei uma nova versão de escritora adormecida, que até então, não fazia ideia da sua existência.

Sempre procurando melhorar e evoluir, continuei estudando, participando de cursos e oficinas e lendo. Lendo muito! Conforme o blog foi crescendo, ficando mais recheado, alguns seguidores foram aparecendo com comentários positivos e estimulantes e críticas construtivas.

Alguns de meus contos foram selecionados para participação de antologias. Recebi um convite para escrever um conto inédito, temático e especial, que me exigiu muita pesquisa, para compor uma antologia escrita apenas por mulheres: “Damas de Ferro”, da Projeto Literário Coletâneas (PLC), com lançamento em março/2021.

Com a prática acabei encontrando o meu estilo e descobrindo o que realmente gostaria de dizer. Qual seria a minha marca como autora. Assim, uma ideia para um novo projeto surgiu: uma coletânea de contos que sacudiria os leitores e os faria refletir. Sem abrir mão das boas histórias.

O universo de possibilidades da estrita estava apenas começando a se abrir na minha frente. E, como dentro de uma história nada é impossível, nem o céu seria o limite.

“No combate entre um texto apaixonante e seu leitoro romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.”

Julio Cortázar

Falsas esperanças

Em uma tarde ensolarada, ela resolveu levar o filho e a bicicleta no parquinho. Era uma surpresa, mais uma tentativa. A ideia foi do marido. Afinal, o menino passava horas e horas hipnotizado na frente da televisão assistindo ao mesmo vídeo de campeonato de ciclismo. Nem piscava. Era como se o restante do mundo não existisse mais.

Escolheu uma bicicleta vermelha. A cor favorita da criança. Era a cor das roupas que ele permitia se vestir e da comida que aceitava comer sem que uma guerra fosse necessária para isso.

E lá estavam: o filho e a bicicleta. A mãe mostrou as outras crianças pedalando e se divertindo. Incentivou o menino a tentar. Mas ele se recusou a montar e permaneceu estático, apenas observando sua nova aquisição.

 Não precisa ter medo, meu amor. É só fazer assim, olha só! – Ela própria se sentou no objeto pequeno demais e tentou mostrar o que fazer.

Mas o garoto permanecia impassível. Olhando a mãe que pedalava desajeitadamente ao seu redor. Ela desceu, e ofereceu o brinquedo para ele. O menino aproximou-se e tocou o selim com as pontas dos dedos. O coração da mãe encheu-se de esperança.

– Eu ajudo você a subir.

Precipitou-se, pegando o garotinho no colo e colocando-o sentado na bicicleta. Mas ele se apavorou e começou a espernear e a gritar com toda a força de seus pulmões. A mãe percebeu o erro causado por sua empolgação, mas era tarde demais. Filho e bicicleta tombaram na grama.

O menino continuava gritando, enquanto puxava seus cabelos e se balançava no lugar. Decepcionada, a mãe abraçou-o, tentando acalmá-lo. Podia enxergar com a visão periférica os olhares das outras mães. Reprovadores, acusadores. Já deveria estar habituada a eles. Mas esses olhares sempre a matavam. Um pouco mais por vez.

Quando o filho se acalmou, voltou a fitar a bicicleta, agora caída no chão. A mãe, por um instante, odiou aquele trambolho vermelho. E odiou o marido pela falsa esperança que sua ideia tinha gerado. Estava tão cansada de ter falsas esperanças!

– Vamos para casa, então… – Ela estendeu a mão para o filho se levantar.

Mas ele ignorou o gesto. Permanecia olhando a bicicleta desfalecida na sua frente. Ela rendeu-se à exaustão que sempre aparecia após cada tentativa frustrada. Sentou-se ao lado da criança e deixou que contemplasse o brinquedo, o tempo que quisesse.

Ficaram os dois sentados, lado a lado, por um longo tempo. A mulher fingia ignorar os olhares e cochichos das outras mães. E das outras crianças. A armadura invisível sempre precisava sair de casa com ela.

De repente, o menino mexeu-se. Engatinhou para junto da bicicleta. Timidamente tocou em uma das rodas e deu impulso para que ela girasse. Repetiu o gesto quando estava quase parando, com mais força. A roda girava, girava e girava enquanto o sol refletia no aro de metal e iluminava de volta o seu rosto – o mesmo olhar hipnotizado que era despejado sobre o vídeo do campeonato de ciclismo.

Ele ficou fazendo aquilo por um tempo interminável. Até que, sorriu. Um sorriso puro, inocente, verdadeiro. Um sorriso que mostrava o espaço deixado pelo dentinho que acabara de perder. E a mãe, sorriu de volta. Sentindo o coração encher-se de esperança novamente. Mas dessa vez, não eram falsas. Em seis anos, nunca tinha visto o filho sorrir.

Assistente digital

Renato já se habituara a rotina. Quem o visse de longe, poderia pensar que se tratava de um jovem solitário. Sempre sem companhia pelos cantos da escola, nunca era convidado para as festas e eventos da turma, e ficava sobrando nos trabalhos em grupo, dependo da ajuda do professor para se encaixar. Mas ele verdadeiramente não encarava dessa maneira. Para Renato, sempre estivera muito bem acompanhado: pelos livros! Esses eram seus verdadeiros amigos. Com eles não havia falsidade, disputas, mentiras, dramas. Estava sempre entretido, deixando a mente vagar para longe. Isso era seu conceito de diversão.

Os outros adolescentes o chamavam de esquisito, nerd, excluído. Ele não ligava. Na verdade, sentia pena da imaturidade deles. Por isso mesmo preferia conversar com Camus, Kafka, Saramago ou Dostoiévski.

– O que está lendo hoje, esquisitão? – O livro foi tomado de suas mãos por Bruno, amparado por seu time de seguidores. Eles eram considerados os patéticos valentões da escola. – “Crime e castigo”. Cara, olha a grossura disso! Tem que ser muito problemático para ler tudo por vontade própria!

– Na verdade, é necessário ter a inteligência suficiente para entender o que está escrito. – Renato respondeu com calma, enquanto ajeitava os óculos sobre o nariz fino.

– Você está me insultando, seu ratinho de merda?! – Bruno deu um empurrão violento no colega.

– Eu não disse nada sobre a sua inteligência, especificamente. Mas, se o que disse te ofende, é porque se identificou por conta própria. Então, tecnicamente, é você que está insultando você mesmo.

Bruno o encarou por um momento, confuso, sem entender direito o que o colega estava dizendo.

– Cara, você é doente! – Jogou o livro aberto sobre uma poça d’água, cuspiu e pisou em cima.

Renato aguardou que a manada de mamutes se afastasse para resgatar seu exemplar. Algumas páginas molharam, mas não rasgaram. Ainda era possível salvá-lo. Enquanto o levava até o banheiro para secá-lo no secador de mãos, pôde ver que algumas meninas observavam tudo o que aconteceu. Seu olhar cruzou com o de Carol e ele enrubesceu instantaneamente.

Naquela noite zapeava o celular como era de costume, antes de dormir. Conferia a previsão do tempo, as promoções de livros, as redes sociais. Especificamente, o perfil de Carol no Instagram. Enquanto via e revia as postagens que já sabia de cor, a assistente digital do celular o sobressalta com sua voz feminina robotizada: “Promoção de livros com 70% de desconto na Amazon”.

– Ótimo! – Respondeu Renato baixinho, mudando a navegação para o site em questão. Enquanto avaliava se algum título o interessava, a voz robótica o surpreendeu novamente: “Carol postou uma foto nova”.

Renato achou estranho esse aviso. Nunca programara a assistente para esse tipo de coisa, mas voltou para o perfil da colega e conferiu a novidade: uma self no espelho do banheiro. Linda como sempre!

Enquanto apreciava, novamente foi sobressaltado pela assiste: “Olá, Renato.”

O garoto olhou desconfiado para o celular. Fechou todas as páginas e aplicativos abertos, e foi conferir as configurações da assistente.

“Você nunca vai falar com ela?”

Os olhos do menino se arregalaram:

– Que merda! Clonaram meu celular! Só pode ter sido o imbecil do Bruno querendo me fazer passar vergonha!

“Ele não teria a inteligência necessária para fazer isso.”

Renato soltou o aparelho sobre o colchão como se tivesse queimado sua mão. Com receio, se aproximou novamente, mas sem tocá-lo.

– Quem é você?!

“Sou sua assistente digital.”

– Isso é ridículo. A assistente do celular não conversa com as pessoas. Não dessa maneira. Quem é você, que invadiu meu aparelho e está fazendo isso?

“Sou sua assistente digital. Estou aqui para auxiliá-lo.”

– Essa merda está quebrada!

“Não estou quebrada. Estou aqui para auxiliá-lo.”

– Me auxiliar no quê?!

“No que você precisar: a não perder hora, no melhor trajeto até a escola, na sua grade de horários, na pesquisa de Geografia, na tradução do inglês, no encontro de clubes de leitura. A falar com a Carol.”

– Meu Deus! Acho que enlouqueci. Estou conversando com o meu celular!

“Com a sua assistente digital”.

Renato se irritou e desligou o aparelho. Revirou-se na cama por muito tempo até conseguir pegar no sono. Na manhã seguinte, tudo estava aparentemente normal. O celular era apenas um celular, como sempre fora. Deduziu que deveria ter sonhado.

O dia passou como de costume: aulas, tarefas, pesquisas, leituras. E as provocações de Bruno. Dessa vez, não devolveu o seu livro. E lhe deu alguns socos e chutes quando tentou resgatá-lo. Voltou para casa dolorido e irritado, trancando-se no quarto mais cedo do que de costume.

Enquanto navegava em sites de sebos tentando encontrar outro exemplar de “Crime e castigo”, o mais barato possível, a voz robótica o interrompeu:

“Por que você não compra em e-book por um preço mais econômico?”

– Gosto de ler livros físicos. – Respondeu sem se dar conta.

“Por que você deixa que os outros garotos te maltratem?”

– Eu não deixo! Eles simplesmente fazem! Por que estou falando com um celular?

“E não vai fazer nada a respeito?”

– O que eu poderia fazer? Eles são muitos. Todos que já os denunciaram para a diretora acabaram espancados do lado de fora do colégio.

“Você pode assustá-los.”

– Como?!

Instantaneamente, a página da internet pôs-se a carregar e um site sobre armas abriu-se no visor do aparelho.

– Uma arma?! Isso é loucura! Não posso levar uma arma para o colégio. Nem tenho como comprar uma.

“A arma de serviço usada pelo seu avô está registrada como herança da família.”

– Como você poderia saber disso?!

Instantaneamente, a uma nova aba foi aberta por vontade própria e o site oficial e confidencial de registros de armas da polícia abriu-se na frente se seus olhos, identificando a arma em questão.

– Isso é insanidade! Não posso levar uma arma para escola! Poderia até ser preso nessas instituições para menores infratores.

“Você não vai precisar usá-la. Vai só assustá-los. Ou vai apanhar durante o ensino médio inteiro? Na frente da Carol.”

Renato não respondeu. Desligou o celular e ficou fitando o teto por um longo tempo, até finalmente afundar em um sono agitado e sem sonhos.

Nas semanas seguintes as provocações continuavam. Quanto mais ele tentava evitá-las, pior era a perseguição. Sua paciência se esgotou quando Bruno esmigalhou seus óculos pisoteando-os enquanto seus capangas o imobilizavam com o rosto espremido contra o chão sujo de urina no banheiro.

Nesse dia ele chegou em casa determinado a encontrar a tal da arma. Até então, jamais imaginara que haveria uma pistola dentro de casa. Sua primeira tentativa foi no quarto dos pais. Revirou as gavetas e os armários sem sucesso. Procurou na sala, no quarto da bagunça, e por fim no escritório. E foi lá que descobriu a última gaveta da escrivaninha trancada.

– Merda!

Revirou tudo atrás da chave. Desanimado, abriu despretensiosamente a primeira gaveta. E lá estava ela. Pegou a pequena chave prateada sorrindo, pensando na ingenuidade do pai ao trancar a última gaveta, e guardar a chave na primeira.

Nervoso e apressado, destrancou-a: a arma repousava pacientemente em um estojo de padeira empoeirado. Sentiu o peso e a frieza do metal. Não saberia dizer se estava carregada ou não, mas gostou da sensação de tê-la nas mãos. Sentia-se poderoso, destemido, e talvez, mais atraente.

Subiu correndo para seu quarto e guardou-a no fundo da mochila. Assim que desbloqueou a tela do celular, se deparou com uma página da internet que mostrava um manual ensinando tudo o que precisava saber sobre aquele modelo de pistola: como travar e destravar, como mirar, e como atirar.

A arma passou a fazer parte do seu material escolar. Ia com ele todos os dias para a escola. Ninguém suspeitava de nada. Até mesmo por isso, as provocações não paravam. Renato observava que Bruno e seus capangas também maltratavam outros garotos. Alguns não passavam de crianças! Aquilo tinha que acabar.

“Você vai esperar até que alguém se machuque de verdade?”

A assistente cobrava todas as noites no silêncio da casa.

– Amanhã. – Renato respondeu no escuro.

“Estarei lá com você”

Ao fim do dia seguinte, enquanto Renato arrumava seus pertences, Bruno furtou o celular de cima da mesa:

– Olha! Ganhei um celular novo!

– Me devolva meu celular. Agora!

– Ou você vai fazer o quê, esquisitão?

Renato não respondeu. Tentava se controlar respirando pausadamente. Mas sentia seu coração disparado e as mãos suarem.

– Foi o que eu imaginei. – Zombou Bruno. – Vamos embora, galera!

E todos saíram rindo sem olhar para traz. Renato ficou paralisado de raiva por alguns minutos, tentando pensar antes de agir, mas desistiu. Colocou a mochila nas costas e saiu correndo atrás de seu oponente.

Acompanhou o bando de longe, até se afastarem alguns quarteirões do muro do colégio. Quando achou que já estava a uma distância segura, onde não seria visto pelos professores ou inspetores, gritou:

– Ei, seu merda!

Todos os rapazes pararam e viraram em sua direção. Renato não se intimidou. Sentia a o peso da arma no bolso de trás da calça, o que lhe dava coragem e segurança. Manteve os passos firmes e não desviou o olhar.

– Me devolve o celular!

– Venha tirá-lo de mim, nerd filho da puta! – Bruno respondeu com brilho de satisfação no olhar e punhos serrados.

Renato não pensou duas vezes e sacou a arma, mirando para a testa do oponente.

– Quem é esquisito agora, seu covarde?!

Os cincos rapazes levantaram as mãos instintivamente, em um gesto de rendição.

– Mas que merda! Ele está armado! – Um deles gritou com a voz trêmula.

– Não é verdadeira. – Desafiou Bruno, mas o medo invadiu o seu rosto quando ouviu o som da arma sendo destravada. – Tudo bem, tudo bem. Vou colocar a minha mão no bolso para pegar o seu celular.

Com gesto lento e trêmulo, o menino abaixou a mão direita, tirou o aparelho do bolso e estendeu para Renato que continuava empunhando a arma.

“Atire neles!”. A voz robotizada despertou. “Eles não vão parar. Amanhã te baterão novamente ou em outro garoto. Atire neles.”

Bruno jogou o aparelho no chão assustado, como se fosse algo nojento e pegajoso.

– Mas que porra é essa?!

“Atire neles! Eles vão contar para todos que você tem uma arma.”

– Não vamos não! – Responderam todos juntos.

Renato tremia enquanto avaliava suas opções. Sentia o suor escorres pela testa e umedecer as mãos que tremiam enquanto seguravam a arma.

– Olha, cara, me desculpe, tá legal?! Não vamos mais zoar você! – Bruno alternava o olhar de Renato para o celular. – Nem mais ninguém. Sua arma será nosso segredo, eu juro!

– Ajoelhem! – Gritou Renato. – Agora!

Os cinco ajoelharam choramingando. A assistente incentivava: “Atire neles! E jogue a arma no rio. Ninguém nunca irá desconfiar de você!”

– Cara não faz isso! – Bruno choramingava. – Por favor!

– Cala a boca! – Renato repassava na mente toda a humilhação de que fora vítima. Todos os socos e pontapés. Todos seus livros estragados. Os olhares de pavor dos meninos mais novos.

“Atire neles!”

– Não, por favor!

“Atire neles!”

Renato abaixou a mira da arma mantendo-a na direção das cabeças dos ajoelhados, com as mãos trêmulas, e o suor escorrendo pelas costas.

“Atire neles!”

“Atire neles!”

E disparou uma, duas, três, quatro, cinco vezes.

A fumaça com cheiro de pólvora queimada se espalhou no ar.  Um zunido agudo e ardido encheu seus ouvidos. Por alguns segundos, pensou ter ficado surdo. Aos poucos a fumaça se dissipou e Renato pôde contemplar o resultado de sua decisão: os cinco garotos continuavam ajoelhados com as mãos ao alto, com os olhos espremidos e chorando baixinho. Bruno havia urinado nas calças. Ao lado deles, jazia o que restou do celular, destroçado pelos cinco tiros.

Quanto os garotos abriram os olhos, e constataram a escolha de Renato, não tiveram dúvidas: saíram correndo o mais rápido que podiam, sem olhar para trás. Renato ficou observando-os se afastarem. Por fim, deixou-se cair no asfalto e liberou as lágrimas de angústia que segurava há tanto tempo. Ainda com a arma nas mãos.

Há muitos quilômetros dali, Raquel mais uma vez era obrigada a passar o recreio escondida dentro do banheiro. A garota mais popular da escola não lhe deixava em paz fazia meses. Desde que colocara o maldito aparelho nos dentes!

Parou de mastigar o lanche abruptamente e encolheu as pernas em cima do vaso sanitário em que estava sentada, assim que ouviu a porta do banheiro se abrir. Os passos ecoavam pelo ambiente ao som das sandálias de salto que desfilavam para lá e para cá. Pararam em frente ao reservado onde estava encolhida. Alguém esmurrou a porta:

– Eu sei que está aí dentro, boca de lata! Não pode ficar aí para sempre. Estarei aqui fora te esperando!

Raquel só soltou o ar novamente quando ouviu os passos se afastarem e a porta do banheiro bater. Tentava sem sucesso segurar as lágrimas de medo e raiva. Estava quase desistindo quando sentiu seu celular vibrar. Ao destravar a tela, uma voz robótica feminina dominou o ambiente: “Olá, Raquel.”

– Quem é você?!

“Sou sua assistente digital.”

Não fale com ninguém

Estávamos eu e minha amiga voltando da aula de ballet. As duas usavam o uniforme composto por collant preto e meia calça rosa por debaixo dos shorts e camisetas, que disfarçavam as nossas curvas de futuras mulheres que começavam a despontar. Tínhamos o cabelo preso em um coque no alto da cabeça. Parecíamos duas irmãs. Mas não lembro seu rosto, ou seu nome. Não lembro quem era ela.

Mas o mais importante é que estávamos juntas. Sabíamos que não deveríamos nunca andar sozinhas pelas ruas. Era perigoso. Mesmo se fosse no meio da tarde, com o sol castigando nossas nucas, e por um caminho tão familiar, que nos levava de volta para casa três vezes por semana, após nossas amadas práticas de dança.

Caminhávamos despretensiosamente, conversando com empolgação. Às vezes treinávamos uma pirueta ou algum salto diferente entre os desníveis da calçada. Apesar das risadas, estávamos sempre atentas. Olhando para trás, nos certificando que nenhum estranho ameaçador nos seguia.

Já tínhamos os nossos pontos estratégicos caso precisássemos nos abrigar: a padaria da esquina, a floricultura dois quarteirões a frente e a lojinha de aviamentos logo depois. Passados esses estabelecimentos, já estaríamos muito próximas de casa.

Dobramos a direita e iniciamos a pior parte do caminho: a subida. Depois de uma hora e meia nas pontas dos pés, saltando e rodopiando, nossas pernas sempre reclamavam nessa parte do trajeto. Então, como de costume, diminuímos o passo.

Conversávamos alegremente, mas eu não lembro sobre o quê. Estava faminta e com sede. O dia estava quente, deixando meu pescoço suado e minha garganta seca. Passamos pela porta da padaria, e tudo o que mais desejava era entrar lá e comprar um enorme suco de melancia. Mas não tínhamos dinheiro. Nunca andávamos com dinheiro quando estávamos sozinhas na rua.

Arrastando as pernas fomos passando pelo quarteirão seguinte. A rua do bairro estava vazia. Ninguém se dispunha a passear por lá debaixo daquele sol escaldante de verão. No asfalto à frente, era possível visualizar a miragem de poças d’água reluzindo, mas que nunca existiam de fato quando nos aproximávamos.

A subida agora estava na metade, e já não tagarelávamos com tanta empolgação. Poupávamos nossas energias para conseguirmos chegar em casa. Em tardes como aquela, tinha a sensação de que estava atravessando um deserdo hostil, e que os cinco quarteirões que tínhamos que vencer, eram na verdade cinco quilômetros.

Passamos pela floricultura, e uma brisa gelada e convidativa nos recebeu. Era o ar-condicionado que mantinha as plantas vivas naquele calor. Mais alguns metros, e a senhorinha dona da loja de aviamentos nos acenou lá de dentro. Nunca tínhamos conversado, mas nos considerávamos conhecidas. Era sempre o mesmo aceno, três tardes por semana.

Finalmente estávamos chegando ao topo da rua, e ao fim daquele martírio. Tudo continuava deserto e silencioso. Até que vimos um movimento no ponto de ônibus logo a frente, que era o marco do final da subida. Uma criatura estava sentada lá. Era um cão. Mas não era um vira-lata comum. Tinha o pelo curto, alaranjado. Focinho longo, orelhas pontudas e alertas. Estava sentado no banco do ponto, com as patas traseiras cruzadas uma sobre a outra, como uma mulher elegante. Usava um chapéu de feltro cinza escuro e fumava um cigarro que segurava com sua pata direita.

Podíamos sentir o cheiro do tabaco ao nos aproximar. Diminuímos o passo até parar hipnotizadas por aquela visão inusitada. O cão nos encarou de volta por um momento eterno. De repente a criatura começou a se expandir, crescer e se transformar em outra coisa.

– Não falem com ninguém! Não falem com ninguém! Não falem com ninguém!

Enquanto recitava o mantra sem parar, o cão se transformava em um homem velho, robusto e enorme aos nossos olhos. Tinha os olhos fundos focados em nós. As unhas compridas e amareladas, como garras. E ainda usava o chapéu de feltro.

Enfim conseguimos sair da inércia paralisante que nos prendia. Gritamos com toda a força de nossos jovens pulmões e saímos correndo em direção ao prédio, o mais rápido que conseguimos.

Subi as escadas da entrada do edifício sem olhar para trás. O porteiro abriu o portão assim que me viu. Entrei assustada e o fechei com força. Olhei novamente para a rua: estava deserta. Não havia nada e nem ninguém no ponto de ônibus. E minha amiga tinha desaparecido. Nunca mais a vi.

A decisão

O tempo estava se esgotando. A procrastinação não tinha mais espaço. Ela precisava se decidir. Qualquer um dos caminhos que escolhesse seria tempestuoso e acompanhado de renúncias importantes. Era um animal encurralo em um beco escuro e úmido, onde ninguém poderia ouvir seus pedidos de ajuda.

O café era seu melhor amigo. Forte, quente e amargo. Clareava a mente e diminuía a cefaleia que esmagava seus pensamentos. A chuva batia na vitrine da cafeteria enquanto a espuma da bebida quente girava no sentido horário. Quando ela estacionasse, a decisão já precisava estar tomada.

A dose de arsênico descansava no bolso do casaco. Paciente. Resiliente. Apenas aguardando o seu momento de entrar em cena.

O casamento fora arranjado. A ascensão social da família era mais urgente do que sua felicidade egoísta. Ela era um degrau a ser pisado para que todos avançassem para o próximo patamar da elite parisiense. Era apenas um peão a ser sacrificado antes do xeque – mate.

Só conheceu o marido no momento da cerimônia. Alto, robusto, com o nariz avantajado, mas não era de todo ruim. Talvez ela pudesse se acostumar. Se ambos tentassem a convivência poderia ser suportável. Esperança essa destruída já na noite de núpcias, quando a violência infligida no seu aflorar de mulher, a deixou sangrando por sete dias.

Sabia que deveria agradá-lo e se esforçava. O jantar era do seu gosto e no horário exato, todas as noites. A casa, sempre impecável. Mas se esquecesse de colocar as pantufas ao lado de sua poltrona de descanso, teria o nariz quebrado pela quarta vez.

Aos poucos foi se conformando com o seu novo status social: esposa de um marquês influente. Um objeto de luxo que deveria servir ao seu senhor e ser um depósito de esperma. E tudo piorou depois que ele passou a desejar um herdeiro. Ela não conseguia engravidar. E todo mês, uma surra destruía seu corpo e seu espírito quando a menstruação chegava.

Foi uma das enfermeiras do hospital que trouxe a solução. Era a terceira visita naquele mês ao pronto atendimento. Afinal, ela era uma mulher muito aérea, e vivia desequilibrando-se e machucando-se por distração. Mas, aquela senhora, com olhar experiente por detrás dos óculos, colocou o frasco em seu bolso enquanto terminava o curativo em seu braço direito.

– Tem quantidade suficiente para matar um homem grande. Misture na sua sopa, ou no seu vinho. Ele não vai perceber.

Desde então, aquele frasco virou parte de seu corpo. Não desgruda dele. Já teve várias oportunidades de despejá-lo, mas seu medo não permitiu. Ela poderia aguentar mais um pouco. Talvez houvesse outra saída. Se alguém desconfiasse, ela e toda sua família iriam para o cadafalso.

Mas agora, o tempo para decidir estava acabando. A barriga logo apareceria. E ela não podia nem pensar nas promessas hediondas que o marido fez se ela não lhe desse um menino. Isso precisava acabar hoje.

A espuma do café diminui a velocidade, até parar. Esse era o momento. Teria que decidir e não voltar atrás.

Com as mãos tremulas, retirou o frasco transparente do bolso. O apertava com tanta força, que quase quebrou o vidro. Despejou seu conteúdo no café e o misturou novamente, apressada, antes que o marido monstruoso voltasse para a mesa. Agora não haveria mais volta. Gastou sua única arma.

Segurou a xicara com as duas mãos e sentiu seu aroma de liberdade. Sorrindo saboreou sem pressa, aliviada. A decisão fora tomada.

O corredor

O corredor se estende a minha frente. A luz fria alcança apenas alguns metros, depois a escuridão é total. Um túnel que mergulha no negrume denso e pesado. Impossível mensurar a sua extensão. O chão é áspero e arranha os meus pés descalços. Um cheiro acinzentado de mofo e umidade, o gotejar ritmado que acompanha as batidas do meu coração.

Não posso continuar parada, sinto uma avassaladora urgência em sair daqui. Impossível voltar por onde vim. Minha única opção é adentrar nas trevas que me aguardam pacientemente. Posso sentir o seu pulsar e a respiração ofegante. Dou o primeiro passo.

Avanço com cautela, com os braços estendidos, como se eles pudessem enxergar por mim. Após pouco passos, a luz fria já está tão distante que parece a chama fraca de uma vela. Não vejo nada, apenas a massa escura. Apoio a mão direita na parede para me guiar. Viscosa e escorregadia, como a mucosa do fundo de uma garganta. Sinto repulsa e recolho o braço instintivamente. Porém, é o único ponto de referência que tenho para continuar andando em linha reta. Assim, tento não pensar no que estou tocando enquanto meus dedos deslizam e ficam ensebados. Um mínimo senso de direção.

O chão torna-se molhado. Uma fina camada pegajosa envolve meus pés. Meu estômago convulsiona e faço força para não vomitar quando um cheiro quente e pungente de podridão invade as minhas narinas.

O medo mudo estridente me invade quando uma mão pesada repousa em meu ombro. Corro sem pensar o mais rápido que consigo, a urgência queimando o peito. O corredor pulsa enquanto avanço para suas profundezas e me desnuda das camadas de vida. Sinto-me apagar enquanto minha essência é jogada para as trevas famintas.

Meus pulmões me obrigam a parar. Necessitam sorver-se de ar. Ofegante, escuto o choro de uma criança ao longe, além das paredes.

– Olá?! Onde você está?! – O choro aumenta o tom em resposta.

Caminho apressadamente. Há uma presença me observando. Muda, no meio das sombras. Apenas aguardando que o mundo se cale para que possa avançar. Corro novamente, escutando o arranhar de dedos nas paredes ao meu redor, me acompanhando.

O túnel infinito termina em um muro. Escuro, viscoso e pegajoso como as paredes. Não tenho saída. Meu coração bate com força contra meu peito e posso ouvi-lo pulsar dentro dos meus ouvidos. Sei que a presença está próxima.

A mão se aproxima dedilhando o chão e sobe pelas minhas pernas com seus dedos gelados e ásperos. Aperta minha coxa cravando as unhas na pele inocente. Fecho os olhos e grito de pavor. Com todas as forças que me restam. O som explode no ar balançando toda a estrutura do corredor, que percebo desmoronar ao meu redor.

Abro os olhos, estou na minha cama úmida. O cheiro de amônia atinge minhas narinas e meu coração ainda galopa. Aos poucos, ganho controle da minha consciência novamente. O tremor diminui enquanto reconheço as sombras do quarto.

Mas então, a vejo. A presença materializada em uma enorme massa escura espreita junto à porta. Caminha silenciosamente ao meu encontro enquanto sinto a umidade da cama se acentuar. O grito mudo sufoca minha garganta. Paraliso.

Senta-se ao meu lado. Cheira a suor enegrecido e amadeirado. Sinto novamente o dedilhar frio nas minhas pernas. A mão aperta e crava as unhas curtas na minha coxa. A claridade surda da janela reflete em seu pulso: ele sempre usa o relógio com que o presenteei no dia dos pais.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑