A velha e o cão

Finalmente consegui um emprego, depois de 3 anos sem um trabalho formal. O cargo de vigia noturno não era o glamour que um dia sonhei para mim, mas não estava em condições de escolher. Seria responsável por vigiar o acesso principal à fábrica. Isso basicamente queria dizer que passaria o turno da madrugada, das 22h às 7h, olhando para escuridão de um beco perdido no meio da grande cidade de São Paulo.

Cheguei cedo no meu primeiro dia e fui apresentado para Antônio, meu companheiro de turno. Antônio era um cara baixo, mas parrudo, com ar entediado, que já exercia a mesma função há cerca de 2 anos.

– Você é o cara novo?

Respondi afirmativamente enquanto estendia a mão direita para cumprimentá-lo.

– Vamos ver se vai durar mais do que o último. – Comentou desdenhando meu gesto.

Às 22h estava no meu posto, ao lado do portão principal, vigiando o nada do lado de fora. A rua estava deserta e silenciosa. A única iluminação existente provinha das luzes da fábrica e de raros postes com lâmpadas fracas, cujo brilhos mal chagavam ao chão. No quarteirão da frente não existia nada além de um terreno baldio abandonado. E do meu lado da rua, o muro interminável e solitário do estabelecimento de que eu deveria tomar conta.

Os minutos se arrastavam sem nenhum movimento. Tudo o que ouvia eram os passos e o assovio de Antônio cantarolando algo do outro lado do portão. A noite estava gelada e eu podia ver minha respiração condensar e se misturar com o restante da nevoa fina que envolvia a rua.

Era por volta da meia noite quando ouvi passos rápidos vindo em minha direção e me despertando de um cochilo. Prontamente levantei minha lanterna em direção ao som e me deparei com dois olhos amarelos movendo-se rapidamente ao meu encontro. Saltei assustado do banco onde me encontrava e demorei alguns instantes para entender que se tratava de um grande cão, negro como a escuridão da rua. Levei a mão até meu cassetete preso no cinto, mas o animal apenas atravessou a minha frente sem sequer me olhar. Continuei acompanhando seu caminho com a luz da lanterna até vê-lo sentar-se ao lado de a uma estranha e silenciosa figura parada à luz fraca de um dos postes, há uns 20 metros de onde eu estava.

Minha visão a distância estava ficando péssima, mas consegui distinguir uma velha senhora encurvada, envolvida por um cobertor encardido e pela nevoa fina. Tanto ela como o cão permaneceram imóveis, apenas olhando na minha direção.

Senti um calafrio percorrer meu corpo. O que aquela idosa fazia na rua, a uma hora dessas, nesse frio e no meio do nada? Estaria perdida? Idosos as vezes se perdem. Achei melhor averiguar se estaria precisando de ajuda, mas a voz de Antônio me sobressaltou:

– Não se aproxime dela! Finja que não a está vendo.

Ele me avisava por uma pequena fresta aberta do portão principal. Não se atrevia a colocar a cabeça para fora. O encarei sem entender:

– O que?! Do que você está falando? É uma senhorinha perdida. Deve estar precisando de ajuda.

– Não está. Não se aproxime, não fale com ela. E principalmente, não a toque!

– Mas isso não faz o menor sentido!

– Já te avisei. Fiz a minha parte!

Antônio fechou o portão com um estrondo. Voltei a olhar para a senhora mal iluminada, que não havia se mexido. Continuava estática, me olhando. Ela e o cão negro. Senti minha nuca se arrepiar. Ficamos nos encarando por um momento.

– A senhora está bem? Precisa de ajuda?

Gritei sem sair de onde estava. Nenhum movimento em resposta. Uma estátua viva no meio da nevoa gelada. Me sentei no banco desconfortável, sem desviar o olhar daquela visão medonha. Tinha a sensação de que o cão me atacaria se me distraísse. Então passaria o resto do turno vigiando aquelas duas criaturas.

Fui acordado pelos primeiros raios de sol da manhã. Imediatamente me levantei assustado, procurando minha lanterna caída no chão. O local onde a senhora estava encontrava-se vazio agora.

Iniciei o turno seguinte mal me lembrando do sinistro encontro. Tudo estava muito distante na minha mente, como a lembrança de um sonho que vai se apagando ao longo do dia. Antônio continuava de poucas palavras e não mencionou o ocorrido. Acabei me convencendo de que realmente tinha sonhado.

Mas exatamente à meia-noite, os passos rápidos e os olhos amarelos reapareceram na escuridão. O cão negro passou na minha frente e se juntou novamente à senhora curvada, postada exatamente no mesmo lugar. E os dois permaneceram imóveis me olhando através da nevoa. Era inquietante.

Bati com a lanterna no portão de ferro:

 – Antônio! Antônio!

Ele abriu a fresta novamente, evidenciando apenas seus olhos castanhos.

– Ela voltou.

– Ela volta todas as noites.

– Quem é ela? O que ela quer? É alguma estratégia de assalto? – Perguntava sem desviar o olhar das duas criaturas.

– Ela tem fome.

– Então vamos dar comida para ela!

– Ela está caçando.

– Antônio, deixe de ser ridículo! Me conte de uma vez o que está acontecendo aqui!

– Ela não pode se aproximar. Só terá acesso ao que deseja se você deixar. Por isso, não toque nela! – E fechou o portão com violência.

Tive o impulso de ir até onde a velha estava e entender de uma vez o que ela queria, mas o cão me dava arrepios. Fiquei receoso de ser atacado. Então, mais uma vez me sentei no banco e passei a noite vigiando e sendo vigiado, até o dia amanhecer e a luz do sol transformar tudo em uma lembrança confusa e longínqua.

Na terceira noite cheguei na fábrica irritado. Sentia que aquela velha estava me fazendo de idiota. Com certeza deveria fazer parte de alguma gangue que tentava me distrair para que pudessem ter acesso à fábrica. E eu não estava disposto a deixar isso acontecer. Iria honrar o meu trabalho.

Então estava decidido a terminar com aquela encenação. O frio estava mais feroz, com ventos cortantes, e a escuridão mais profunda, como uma massa negra e amorfa que tomava conta de tudo. Como um relógio cronometrado, o cão negro passou novamente por mim à meia-noite e se posicionou ao lado da idosa. Olhei para ambos por um momento, enquanto decidia o que fazer.

Tirei meu cassetete do cinto e me aproximei lentamente. Estava preparado caso seus comparsas resolvessem pular da escuridão.

– A senhora está bem? Precisa de ajuda?

Como esperava, não obtive resposta. Continuei avançando, prestando atenção nos movimentos da besta negra. Parei de frente para a mulher. Tinha profundas rugas na pele amarelada e flácida, que parecia escorrer pelo rosto. Cheirava a algo podre, como carne estragada, o que me fez proteger o nariz com a gola do casaco. E não desviava seu olhar do meu.

– Senhora? A senhora está me ouvindo?

Nenhum movimento. Nenhum bandido saiu de seu esconderijo. De onde estava, mal enxergava o portão da fábrica. A luz da lanterna não conseguia iluminar mais de 1 metro a minha frente. A escuridão parecia sólida. E o silêncio era sepulcral. Só ouvia a minha respiração ofegante e o meu coração disparado. Sentia que estava suando apesar do frio.

Continuei encarando a velha, que sustentava o seu olhar sem titubear. Por impulso, levei minha mão direita ao seu ombro desnudo. Milímetros antes de meus dedos encostarem em sua pele pegajosa, pude sentir uma respiração quente bem próxima ao meu pescoço. O cheiro me deu náuseas, era o bafo da morte. Não tive coragem de olhar, mas podia jurar que o cão não estava mais sentado pacificamente ao lado da mulher. De alguma maneira sabia que era a besta negra atrás de mim, sedenta pela minha alma.

Entrei em pânico e saí correndo e gritando pela escuridão. Não fazia ideia de onde estava indo, só precisava sair dali. E foi quando, dois faróis quebraram o negrume à minha volta e me cegaram. Já estavam perto demais e não tive tempo de fazer nada. O impacto foi estrondoso e pude sentir meus ossos se quebrarem antes mesmo de aterrissar alguns metros à frente, novamente próximo àqueles seres indefiníveis.

Tudo estava turvo e desfocado. Senti que a consciência se esvaia de mim, assim como o líquido morno que me rodeava. A última imagem que consegui registrar foram as duas criaturas bestiais paradas no mesmo lugar. Embaixo do poste mal iluminado, estáticos, olhando para mim.

Filtro dos sonhos

Chegamos na cena do crime por volta das 22h. Eu e a inspetora da Polícia Federal que também era minha parceira e superiora imediata. Com seu grande talento analítico para dedução, Daniela impressionou todo o departamento com sua ascensão explosiva na carreira. Chamando atenção desde seus primeiros dias como agente, não demorou para que saltasse os degraus com habilidade até ocupar seu cargo na linha de frente das investigações nacionais mais importantes. O cargo que deveria ser meu. Claro, concordo que a menina tem um talento excepcional, mas mal saiu das fraldas. Não fazem nem cinco anos que ela passou no concurso para ingressar na PF, e eu, que dou o meu sangue há mais de trinta, agora tenho que responder a alguém com idade para ser minha filha.

O assassinato aconteceu dentro da casa da vítima, em um dos condomínios mais luxuosos e seguros de São Paulo. O corpo de Camile, de 16 anos, jazia no meio da sala de estar da enorme mansão de 400m². Caída de costas sobre uma poça de seu próprio sangue, deixava visível o orifício de entrada da bala, certeiro no seu coração. Não nos aproximamos muito, pois os peritos já trabalhavam intensamente para coletar todas as provas possíveis antes que se perdessem.

– O que temos aqui? – Daniela perguntava para o agente que nos recebeu.

– Camile Ferraz, filha única de Paulo e Luiza Ferraz, empresários magnatas da cidade. Foi encontrada morta pelos pais quando chegavam de um dia de trabalho. Não há sinais de arrombamento, nem luta. A vítima aparentemente deixou o assassino entrar.

Me aproximei de um dos peritos que passava luminol pela sala, na procura de manchas de sangue que poderiam ter sido limpas intencionalmente, e depois iluminava tudo com luz ultravioleta.

– Alguma coisa?

– Nada. Aparentemente o assassino entrou, deu um único tiro e foi embora.

– Impressões digitais? Marcas? Fibras?

– Ainda estamos recolhendo os dados.

– Vamos conversar com os pais da vítima. – Daniela me chamou.

As duas almas arrasadas encontravam-se na sala ao lado. Estavam sentados em um elegante sofá de camurça bordô. A mãe apenas gemia amparada pelo marido, já não tendo mais forças para chorar.

– Sr. e Sra. Ferraz, sou a inspetora Daniela, esse é meu parceiro: Oficial Mauricio. Somos os responsáveis pelas investigações. Vocês poderiam nos contar o que aconteceu?

– Nós chegamos em casa e a encontramos assim…

– Poderia ser mais específico, senhor Ferraz? – Perguntei impaciente. – Notaram algo de diferente na rua?

– Não. Mas a porta de casa não estava trancada. Nem prestei atenção na hora. Entramos cansados depois de um longo dia de reuniões com clientes. E quando acendemos as luzes… Minha filhinha!!! – Foi interrompido por soluços.

– Eu sinto muito por sua perda. – Daniela sentou-se ao lado do casal. – Vocês conseguem imaginar alguém que quisesse fazer mal à Camile? Algum inimigo, desavença, namorado? Ela teria mudado seu comportamento de alguma maneira recentemente?

Ambos negaram.

– Camile não tinha namorado e era muito querida pelos amigos… – contou a mãe antes de se debulhar em lágrimas novamente.

– E vocês? Possuem inimigos?

Paulo nos encarou com os olhos vermelhos e inchados:

– Somos ricos. Temos muitos inimigos.

Troquei olhares com minha parceira. Já teríamos por onde começar.

– Muito bem, Sr. Ferraz. Precisaremos da colaboração de vocês para pegarmos quem fez isso com Camile. Quero que façam uma lista de todas as pessoas que consideram “inimigos” e suas motivações. Entreguem para o Oficial Mauricio.

E virando-se para mim:

– Vou até a guarita do condomínio avaliar e apreender as filmagens de todos os carros que passaram por lá nas últimas 72h. Pegue essa lista de nomes e me encontre na delegacia em 2 horas. Até lá, já teremos os relatórios preliminares da perícia.

Cerca de três horas depois, estávamos com os relatórios em mãos:

– Nada! – Lamentava-se minha parceira. – Nenhuma impressão digital, nenhuma marca de sapato, fio de cabelo, fibra de qualquer espécie. Quem fez isso tomou precauções, sabia o que estava fazendo. E não roubou nada.

– Aparentemente o assassino tocou a campainha, entrou, atirou e foi embora. Alguma coisa nos vídeos da segurança?

– Houve muita movimentação no condomínio nas últimas 24h. Mas nada considerado suspeito. De qualquer maneira, todos os veículos que passaram pela entrada de visitantes estão sendo rastreados. Saiu o relatório do legista?

Abri uma pasta vermelha e tirei de lá um maço grosso de folhas impressas. Após folheá-las, achei o que procurava:

– Aqui está. Causa da morte: tiro único, com o orifício de entrada na face anterolateral esquerda do tórax, que atravessou o coração e se instalou na coluna. Um projétil calibre 38, levado para análise na balística. – Passei mais algumas folhas e tive uma surpresa. – Olhe isso: não houve trauma sexual, mas a garota teria tido relação a menos de 24h. Encontraram sêmen na região vaginal.

– A análise de DNA demora semanas.

– Não quando se trata de uma família tão rica e influente. – Sorri satisfeito.

Passamos os dias seguintes interrogando as pessoas da “lista de inimigos” que Paulo Ferraz fizera. Tratava-se de pessoas tão ricas quanto ele, que na verdade mostram-se concorrentes de mercado e não inimigos pessoais. E todos tinham álibis incontestáveis para o dia e hora do crime. Não saímos do lugar.

O relatório do setor de informática era mais animador: Camile, ou @camilove, se correspondia frequentemente com um tal de @guerreiro21, tanto pelo celular quanto pelo notebook. E as mensagens eram quentes! A busca pelo IP do correspondente secreto, revelou que ele frequentava diferentes Lan House da zona leste da cidade. Nunca uma máquina pessoal.

O celular de Daniela tocou. Sabia que a notícia era boa, pois seu sorriso se estendia de orelha a orelha.

– Temos um suspeito! – Ela desligou triunfante. – O resultado do DNA do esperma saiu e bateu com resultados do nosso banco de dados! Os agentes apreenderam o acusado no trabalho, uma lanchonete na Mooca, e já o estão conduzindo para nossa delegacia mais próxima!

– Vamos no meu carro. Aposto o que você quiser que é o tal de @guerreiro21!

Enquanto eu dirigia meu sedan preto com a sirene portátil de viaturas descaracterizadas ligada, o trânsito infernal de São Paulo se abria a nossa frente. Daniela olhava hipnotizada para o meu novo acessório que balançava pendurado no retrovisor dianteiro.

– É um filtro dos sonhos. – Informei.

– Eu sei. Conheço a lenda. Só não imaginava que você acreditava nesse tipo de coisa.

– Não acredito. Mas esse é exclusivo. – Podia sentir meu rosto corar. – Foi feito pela minha esposa. Segundo ela, é o único filtro de sonhos feito de missangas que encontrarei. Pois a ideia foi dela de fazê-lo assim. Na verdade, o trabalho manual a está ajudando no tratamento da depressão. Eu tento apoiar.

– Muito nobre da sua parte.

Daniela continuava analisando aquele artigo ridículo.

– Posso pedir para ela fazer um para você. Parece que gostou!

– Ficaria lisonjeada.

Chegamos na delegacia, que estava em polvorosa. O caso teve uma repercussão monstruosa na imprensa nacional, já que a vítima pertencia a uma família muito rica e influente. Repórteres, câmeras e curiosos atrapalhavam nossa passagem e dificultavam o nosso acesso à delegacia.

O rapaz que se encontrava na sala de interrogatórios ainda usava o uniforme de trabalho da lanchonete. Chamava-se Wagner da Silva, 21 anos, e tinha seu DNA em nossos registros devido a um assalto a mão-armada que cometeu há 3 anos.

– Sr. Wagner da Silva… – Comecei sedento, louco para voar no pescoço do meliante. – Você pode nos contar qual a sua relação com Camile Ferraz e o que fazia no dia 26 de setembro das 13 às 20 horas?

– Estava trabalhando. No mesmo lugar de onde me arrancaram agora! Podem perguntar para meu patrão.

Ele mantinha uma postura solta na cadeira, com os braços cruzados sobre o peito, e me lançava um olhar desafiador. Isso me dava nos nervos! Continuei:

– Conhecia Camile Ferraz?!

Ele não respondia, apenas me encarava.

– Muito bem. Eu posso dizer o que aconteceu. Você entrou no condomínio para entregar um lanche. Viu Camile e ficou com tesão assim que ela abriu a porta e deixou você entrar. A coagiu com um revólver calibre 38 para que não reagisse, o mesmo tipo de arma que você usou no assalto há 3 anos, a estuprou e, não satisfeito, a matou em seguida. Estou certo?

Seu olhar era de ódio. Sustentei o meu sem desviar. Wagner socou a mesa, impaciente.

– Eu jamais faria isso! Eu amava Camile!

Um silêncio constrangedor tomou conta do pequeno cômodo. Daniela, mais ponderada, tomou a frente:

– Como assim amava Camile? De onde a conhecia?

Acuado, o suspeito resolveu falar:

– Camile e eu estávamos juntos há 8 meses. Estávamos apaixonados!

– Camile Ferraz, filha do magnata Paulo Ferraz estava tendo um relacionamento com você?!

– Por que a surpresa? Por que sou pobre?! Um pé rapado?

– E como vocês se conheceram, Don Juan? – perguntei quase achando graça.

– Num pancadão em Heliópolis.

– Camile foi em um pancadão no meio da maior favela da cidade?! – aquele moleque só podia estar gozando com a nossa cara!

– Várias vezes. E não é a única patricinha a aparecer por lá. Ficariam surpresos de ver como toda essa riqueza deixa a nata da cidade entediada…

Daniela encarou o rapaz por um longo tempo.

– Alguém pode comprovar o relacionamento de vocês?

– Era segredo. Os pais delas jamais aceitariam. Nos vimos aquele dia na hora do almoço. Fizemos amor pela última vez… – Uma lagrima escorreu pela face do sem vergonha.

Perdi a paciência, e esmurrei a mesa, fazendo Wagner pular na cadeira:

– Muito conveniente! Um romance secreto, sem testemunhas seria um álibi perfeito para justificar um estupro! Mas, como Camile te entregaria para as autoridades e você viraria mulherzinha na prisão, revolveu matá-la, enquanto ela estava ajoelhada pedindo clemencia!

Eu estava quase agredindo aquele assassino, quando Daniela me conteve.

– Wagner, você era o @guerreiro21 que se correspondia com Camile.

Ele concordou. E jogou seu celular sobre a mesa.

– Podem olhar o meu celular. Não tenho internet nele. Usava as Lan Houses porque eram mais baratas. Mas eu liguei pra ela naquele dia. As 18:24. E alguém atendeu.

– Alguém atendeu?! – Daniela estava interessada. – Disse alguma coisa?

– Não disse nada. Mas eu podia ouvir sua respiração ofegante.

Depois do interrogatório, nos escondemos em uma cafeteria para conseguir pensar e comer alguma coisa.

– Não sei se conseguiremos detê-lo por muito tempo. As provas são circunstanciais…

– Como assim, parceira? É claro que foi o cara! Tinha porra dele fresca dentro da vítima!

– Pense bem, Mauricio: como um moleque da periferia conseguiria cometer o crime perfeito? Sem deixar nenhuma pista: impressão digital, cabelo, saliva… Nada!

– Ele deixou a porra!

– Temos de provar que não foi sexo consensual. Não havia trauma no exame de corpo de delito.

Me levantei irritado da mesa. Como a inspetora prodígio não conseguia enxergar o que estava bem debaixo do seu nariz?!

– Não entendo você, Daniela! Por que defende um marginal?! Faríamos um favor à sociedade. Um a menos nas ruas! Estarei na delegacia se precisar de mim.

Não esperei que respondesse, e sai do estabelecimento sem olhar para traz.

Dois dias depois, estava na minha mesa, debruçado sobre os depoimentos dos “inimigos” da família, quando Daniela me surpreendeu depositando um celular na minha frente.

– Você esqueceu na cafeteria.

– Obrigado. Achei que tivesse perdido!

– Vamos voltar na cena do crime. Tenho uma teoria.

A enorme mansão estava deserta. Ainda com o perímetro isolado pelas fitas da polícia. Alguns arranjos de flores murchas cobriam o capacho da entrada. Ao abrirmos a porta, o cheiro de sangue seco invadiu nossas narinas. Acendi a luz enquanto Daniela circulava pela sala de estar.

– Camile foi encontrada aqui. – Ela apontava para o tapete manchado. – Pelo orifício de entrada do tiro e pela posição dos respingos de sangue, o assassino atirou daqui.

Daniela se posicionou mais a direita e fingiu apontar uma arma com os dedos.

– A vítima estava ajoelhada, certo?

– Certo. – Concordei inconscientemente.

– O mais estranho, Mauricio, é que no relatório da perícia, em nenhum momento estava escrito que ela estava ajoelhada.

Dei de ombros, não entendendo aonde ela queria chegar.

– O seu filtro dos sonhos, feito de missangas. Eu sabia que já tinha visto em algum lugar. Voltei às gravações das câmeras de vigilância daquele dia e lá estava ele! Um sedan preto passou pela entrada dos moradores sem chamar a atenção. Tinha um enorme filtro dos sonhos balançando pendurado no retrovisor dianteiro. As missangas até reluziam na gravação. Mas não era a sua placa, claro!

– Mas de que merda você está falando, Daniela?!

– Calma, é só uma teoria. Me deixe terminar.

Daniela enfiou a mão do bolso e tirou um celular com a capa cor de rosa cheia de adesivos brilhantes. Colocou em cima de uma mesa ao meu lado. Era o telefone de Camile.

– Wagner disse que ligou para a namorada e alguém atendeu, e ficou apenas escutando. Isso quer dizer que o assassino pressionou a orelha contra a tela do aparelho.

– E daí?!

– Você é um policial muito experiente, Mauricio. Mas será que é atualizado? Desde 2013 as impressões auriculares são usadas para identificação humana, como as impressões digitais.

– Aonde você está querendo chegar, desgraçada?!

– É a sua orelha que foi pressionada na tela desse celular, Mauricio! Comparei com a impressão auricular do seu telefone!

A filha da puta realmente descobriu! Por um momento fiquei sem reação. Até que percebi que não teria outra opção. Saquei minha arma e apontei para o meio da testa daquela vagabunda. Ela também apontava a dela para a minha.

– Por que, Mauricio? Por que matou aquela menina?

– Era para ter sido o pai, mas foi ela quem atendeu a porta.

– Qual a sua motivação contra a família Ferraz?!

– Nenhuma! O meu problema é você!

– Eu?! O que tenho a ver com isso?!

Daniela nem sequer tremia a mira de sua pistola. Mantive-me firme também.

– Você é uma criança brincando de detetive! Entrou na PF ontem, e está ocupando uma posição que era para ser minha. Luto por ela há 30 anos! Queria provar para a corporação inteira que você não é tão boa quanto parece. Que não conseguiria desvendar um crime perfeito.

– Não existe crime perfeito, seu merda! Por que a família Ferraz?

Dei de ombros. Já não fazia mais diferença. Só um de nós dois sairia vivo daquela situação.

– Porque eles eram ricos. Muito ricos! A imprensa cairia em cima, a opinião publica te pressionaria. E o país inteiro assistiria o seu fracasso!

– Mas eu não fracassei.

Nesse instante vários agentes saíram das sombras de dentro da mansão. Todos apontavam suas armas para mim. Gritavam, me mandavam soltar a minha e me deitar no chão. Desgraçados insolentes! Fui eu quem ensinou tudo aquilo para eles!

Olhei nos olhos daquela puta. Eu ainda estava na sua mira. Abaixei minha pistola lentamente, sem desviar o meu olhar e disse:

– Você não é tão boa assim!

Em um único gesto rápido, enfiei o cano da arma na boca e puxei o gatilho. Pude sentir o gosto da pólvora e ver o desespero no rosto dela. Foi uma ótima visão antes de morrer.

A idade do lobo

Aline chegou animada na festa. Usava seu vestido vermelho da sorte, na esperança de que ele finalmente a notasse. Era aniversário de Julia, sua melhor amiga. E a casa estava movimentada, cheia de adolescentes com hormônios transbordando.

Não demorou muito para o encontrar. Mais alto e robusto do que a maioria dos meninos, Marcelo não passava desapercebido. Porém, não parecia perceber mais ninguém. Estava rodeado de amigos, e não se preocupava com o que acontecia em sua volta.

Aline resolveu se aproximar da roda, e quem sabe, participar da conversa. Caminhava com o olhar fixo em seu alvo, pensando em como abordá-lo. Oferecer uma lata de cerveja? Ele já segurava uma. Ou um dos sanduiches? Não, isso seria muito idiota.

Distraída, trombou com alguém vindo na direção oposta, e imediatamente sentiu um líquido gelado molhar todo seu vestido.

– Me desculpe, princesa! – Um homem barbudo se lamentou. – Não vi você. Mas fique tranquila, era só água dentro do copo. Não vai manchar esse seu lindo vestido vermelho.

– Tudo bem, eu também não estava prestando atenção.

Sem graça, Aline olhou para onde os meninos estavam. Aparentemente nem notaram o ocorrido. O desconhecido estendeu a mão:

– Me chamo Jorge. Trabalho com o pai da Julia.

– Aline. – Aceitou o comprimento sem prestar muita atenção.

– Você é linda, princesa! Deve ter uma fila de fãs atrás de você.

Tal comentário a tirou de seus devaneios e a fez prestar atenção na pessoa a sua frente. Jorge não era muito alto, mas era grande. Tinha cabelos presos em um rabo baixo, uma barba volumosa que já ficava grisalha e sobrancelhas grossas e peludas. Seu sorriso mal intencionado mostrava dentes grande e amarelados. Sentiu uma certa repulsa.

– Obrigada. Preciso encontrar a Julia agora…

Rapidamente se desvencilhou daquele homem inconveniente e encontrou sua amiga na área da piscina. Enquanto conversava com a aniversariante, podia ver o tal de Jorge parado a alguns metros, com o olhar fixo nela. Era inquietante.

– Que cara estranho esse amigo do seu pai. Ele não para de olhar para cá!

– Quem? O Jorge? Não liga pra ele não. Papai sempre fala que ele está na idade do lobo.

– Idade do lobo?

– Você sabe: coroas que não aceitam que são coroas e continuam tentando pegar as menininhas.

– Que nojo!

A festa passou rápido. Foi divertida, mas Aline não trocou nenhuma palavra com Marcelo, e aquele coroa esquisito não parou de rodeá-la. No final, seu humor já estava péssimo e ela só queria ir para casa.

– Leve um pedaço do bolo para sua avó, Aline. Espero que ela esteja melhorando dessa gripe terrível! – A mãe de Julia embrulhava um pedaço generoso para viajem. – Tem certeza de que é seguro você andar sozinha na rua a essa hora? Já é quase uma da manhã.

– Claro, tia, não se preocupe. São só três quarteirões.

Aline saiu para a noite fresca, andando rapidamente por aquele percurso entre as casas do bairro que já cruzara inúmeras vezes. O caminho não estava bem iluminado, mas a menina já conhecia de cor cada desnível das calçadas.

Ao cruzar o primeiro quarteirão, ouviu passos se aproximando às suas costas. Virou-se imediatamente e se deparou com uma massa escura se movimentando pelas sombras da rua. Ia sair correndo, quando uma voz conhecida a chamou:

– Calma, princesa! Sou eu, o Jorge. Fiquei preocupado com você andando sozinha a essa hora e vim te acompanhar até sua casa.

O coração da Aline ainda estava galopando quando reconheceu a barba volumosa e os dentes amarelados. Não ficou muito aliviada em vê-lo, mas sabia que poderia ter sido pior.

Em silencio, foram andando lado a lado. Jorge jogou a bituca de cigarro no chão e a esmagou com o sapato. A repulsa da menina só aumentou ao sentir o cheiro azedo da nicotina. Ao cruzarem o segundo quarteirão, o homem subitamente jogou seu peso sobre o corpo pequeno de Aline, obrigando-a a entrar em um beco mais escuro.

A surpresa impediu a garota de reagir, e Jorge aproveitou para encurralá-la contra um muro.

– O que está fazendo?!

– Você já tem idade suficiente para saber das necessidades de um homem, princesa!

Aline podia sentir a barba áspera com cheiro suor roçando no seu pescoço, o hálito amargo suspirando em seu ouvido, enquanto uma mão quente e úmida subia por suas pernas e agarra sua nádega por baixo do vestido.

– Pare com isso! Socorro! Socorro! Socorro!

Foi calada por uma bofetada na face que a derrubou no chão. Jorge sentou-se sobre ela, a imobilizando, enquanto desafivelava o cinto.

– Socorro! Socorro! Alguém me ajude, pelo amor de Deus!

Mais uma bofetada deixou a menina tonta e com gosto de sangue na boca.

– Vou bater quantas vezes forem preciso até que você cale essa boca, princesa!

Aline chorava e tentava se desvencilhar daquele peso, mas era inútil, ela não tinha a força necessária. Jorge agora forçava suas pernas para que se afastassem enquanto ela esperneava e tentava chutá-lo.

– Socorro! Por favor, socorro!

Outra bofetada, mais forte dessa vez. Aline apagou por alguns segundos. Pôde ouvi-lo abrir a braguilha, mas a investida não aconteceu. Com a visão fora de foco, a menina percebeu que Jorge lutava com o zíper da calça emperrado, que lacerara seu prepúcio, fazendo o sangue escorrer enquanto ele gemia de dor. Se esgueirou então como uma cobra para sair de baixo do homem o mais rápido que pôde.

Livre do agressor, seu primeiro impulso foi sair correndo dali. Porém algo a deteve. Notou uma grande pedra solta do calçamento. Agarrou-a com ambas as mãos e com a maior força que conseguiu, golpeou a cabeça do violador que ainda se encontra ajoelhado no chão.

Jorge caiu imóvel. A garota se deteve por um instante. Não sentia mais o desespero para sair dali. Seu medo fora substituído por uma grande satisfação. Observou o homem inerte por um momento, indefeso como ela estava a pouco. Sem pensar, ergueu novamente a pedra e o golpeou na cabeça mais uma vez. E de novo, de novo e de novo, sentindo um frenesi e uma excitação como jamais experimentara antes. 

Quando seus braços cansaram, fitou admirada a massa amorfa que antes fora um rosto, e agora não passava de sangue, ossos e massa encefálica exposta. Sorriu satisfeita:

– Eu não sou uma princesa!

Fios de clara de ovo

A UTI estava agora sempre lotada. Desde o início da pandemia COVID-19, ter um leito disponível era impossível. Os pacientes pioravam muito rápido, precisavam de intubação e suporte ventilatório. E ficavam semanas nesse estado, com melhora muito lenta, o que impossibilitava atender outros pacientes. Era o chamado “colapso” que tanto temíamos.

Os bipes dos monitores e o som dos ventiladores mecânicos embalavam o plantão. Pacientes imóveis e críticos se espalhavam por todo o salão do setor, ocupando até mesmo os leitos extras improvisados na urgência.

Era em um deles que ele se encontrava. Dr. Paulo era um médico querido por toda a equipe. Dedicado à sua vocação, nunca abandonou a linha de frente. Mesmo quando mal sabíamos com que estávamos lidando, ele estava lá, pronto para ajudar. Como um cavaleiro heroico em sua armadura sob a forma de jaleco branco. Munido com conhecimento e experiência. Mas, até ele foi abatido, e se encontrada agora dependente do ar empurrado para dentro dos seus pulmões artificialmente.

Ele era estimado por todos. Mas principalmente por mim. Paulo e eu vivíamos um romance às escondidas há 1 ano. Sempre tivemos medo de nos assumir, pensando no impacto que isso geraria dentro do nosso ambiente de trabalho, visto que ele é meu chefe, e o hospital é financiado por uma instituição católica, que não aprovaria um relacionamento dessa natureza. Talvez agora, não faça mais diferença.

A falsa tranquilidade do plantão foi interrompida pelo alarme estridente do monitor cardíaco do leito 9. Uma senhora de 77 anos havia sofrido uma parada cardíaca. Prontamente eu e minha equipe começamos as manobras de ressuscitação: massagem cardíaca, drogas, cardioversão elétrica. O ciclo foi repetido durante 15 longos minutos. Quando já estava quase desistindo, o pulso voltou. Esse tipo de intercorrência tinha virado rotina, mas a maioria dos pacientes não tinha um desfecho tão favorável.

No plantão seguinte, Paulo continuava em estado crítico. Sem nenhuma melhora. Mas a senhora do leito 9, estava acordada, respirando espontaneamente através da sua máscara de oxigênio.

A examinava quando ela afastou a máscara e me interrompeu:

– Eu vi tudo, meu filho.

Retirei o estetoscópio para ouvi-la melhor.

– Eu vi você me apertando quando meu coração parou. Vi quando me deu aquele choque igual nos filmes. – E levou a mão trêmula até o peito em um gesto inconsciente.

– Isso não é possível, dona Cida. A senhora deve ter sonhado.

Ela olhava para o teto enquanto falava:

– Eu estava lá em cima. Vendo tudo. Flutuando como um balão. E tinha um fio transparente, como clara de ovo, que me impedia de sair voando…

– É só o seu cérebro pregando peças, por causa da falta de oxigênio durante a parada cardíaca, e…

– E todos aqui estão flutuando também. – Ela me interrompeu, ignorando minhas explicações. – Todos estão presos pelo fio de clara de ovo. Mas alguns são bem fininhos. E acho que são esses que vão morrer em breve.

– Fios de clara de ovo?

– Isso mesmo. Os fininhos vão se romper. Acho que então o corpo morre, mas a pessoa vai sair voando por esse teto.

Não respondi. Me limitei a concordar sorrindo. Pacientes idosos sempre acabavam delirando em internações prolongadas.

– Eu sei que não acredita em mim. Eu também não acreditaria. Pareço uma louca. Mas você vai ver.

– Vou ver o quê, dona Cida?

– Aquele ali. O leito doze. Tinha o fio mais fininho.

– Tudo bem. Vou ficar de olho nele. Agora é melhor a senhora parar de falar e colocar sua máscara de novo. A saturação começou a cair.

Terminei de avaliar os pacientes e finalmente pude me recolher na pequena copa para jantar. Mal tinha engolido a terceira garfada, quando a enfermeira abriu a porta abruptamente:

– Doutor! O paciente do leito doze está em parada cardíaca!

Larguei a refeição e fomos correndo atender a emergência. Depois de tentar as manobras de ressuscitação por 30 minutos, fui obrigado a constatar o óbito. Não pude evitar de encarar dona Cida quando passei desanimado na frente do seu leito. Ela me chamou com seus dedos magros e manchados. Ao me aproximar, ela abaixou novamente a máscara e disse baixinho, revelando um segredo:

– Aquela ali, do leito dois.

– O que tem ela, dona Cida?

Antes que ela me respondesse, o monitor cardíaco daquele leito disparou o alarme. Outra parada cardíaca. Novamente, a correria se instalou na UTI. Massagem, choque, drogas, óbito.

Me sentia frustrado, e até mesmo irritado. Passei na frente do leito 9 sem olhar para dona Cida. Aquilo era ridículo, e estava me desconcentrando do meu trabalho! Entrei no quarto de repouso dos médicos e me joguei numa poltrona. Tentava raciocinar logicamente. Fios de clara de ovos não existem. Pessoas não flutuam fora do corpo como balão. Aquilo era delírio de uma velha doente.

Por outro lado, foram aqueles exatos pacientes que faleceram. Como ela falou. Mas todos aqui são pacientes graves, lutando pela vida. Não é tão surpreendente assim que alguns não vençam. E foi quando tive um estalo: Paulo! Se houvesse alguma verdade naquela fantasia, dona Cida poderia me dizer como era o fio de clara de ovo de Paulo. Se ele venceria sua batalha. Era loucura, eu sei. Mas a esperança não é racional.

Voltei ao leito 9. Dona Cida apenas me encarava, com sua respiração ofegante embaçando a máscara de oxigênio.

– Você disse que todos estão flutuando presos aos fios de clara de ovo, certo?

Apenas concordou, sem forças para falar.

– Como era o fio do paciente do leito quatro?

Ela me olhava fixamente. Me aproximei um pouco mais e perguntei novamente. A paciente continuava me encarando, com o olhar perdido, opaco.

– Dona Cida, como era o fio do paciente do leito quatro?!

Nada, apenas o olhar vazio.

– Dona Cida?! Dona Cida, me responda!

Quando dei por mim eu estava sacudindo a velha senhora com desespero, e só sai daquele transe por causa do alarme do monitor. Seu coração parara novamente. Imediatamente, a equipe invadiu o box do leito e as manobras recomeçaram. Não conseguia desviar o olhar do teto, como se esperasse ver dona Cida lá em cima, e de alguma maneira ela conseguisse me responder. Conseguisse acabar com a minha angústia, com o meu desespero. Como era o fio do paciente do leito 4?! Mas o coração de dona Cida nunca voltou a bater.

A Rede

As histórias da biza sempre foram impressionantes. A maioria da família não lhe dava ouvidos. Afirmavam que não passavam de distorções da realidade causadas por sua mente senil que aos poucos desmoronava. Mas Pedro as adorava. Invenções ou não, eram fantásticas! O levava a universos completamente desconhecidos e assustadores.

– As pessoas se tocavam, biza? Encostavam na pele uma da outra?

– Claro! Era a coisa mais normal do mundo. Encontrar alguém e cumprimentá-lo com um abraço, um aperto de mão.

– Mesmo se não morassem na mesma casa?!

– Principalmente se não morassem na mesma casa.

Pedro ficava maravilhado com as narrativas desse passado remoto e intocável. Pessoas saiam de casa, se encontravam, conversavam cara a cara. Não utilizavam computadores e nem celulares para isso. Tudo acontecia fora das telas.

– E tem mais. – Biza sorria com sua gengiva lisa e sem dentes – Eram menores.

– Como assim menores?!

– Metade da sua largura. Todos aqui seriam considerados obesos, uma condição que causaria riscos para a saúde e deveria ser corrigida. Naquele tempo, o ideal era ser magro.

– Mas como alguém poderia ser magro? Eles passavam fome?

– Alguns. Mas a razão para a magreza era que as pessoas se movimentavam.

– Se movimentavam para quê?! – O menino parecia chocado, arregalando seus enormes olhos castanhos.

– Para tudo! Para trabalhar, para fazer compras, por lazer, para encontrar amigos. O mundo era movimento! Não essa coisa parada que você conhece. Agora todo mundo tem calo na bunda de tanto ficar sentado na frente de um computador!

Pedro não conseguia dormir. Ficava imaginando um mundo com ruas movimentadas, pessoas circulando, amigos conversando, se tocando! Barulho e ação. Ele não conhecia esse tipo de coisa. Seu mundo era estático. Iluminado pela luz fria de uma tela. Tudo acontecia lá dentro, na Rede. O mundo aqui fora era só uma sombra da realidade. Era lá dentro que a vida fluía. Era lá que estavam seus amigos, seus professores, toda a existência da humanidade.

Ele aprendeu na aula de História sobre a grande pandemia. Como todos ficaram com medo de morrer. Como se entocaram e desenvolveram alternativas para suprir suas necessidades. E foram entrando cada vez mais na Rede, até que a vida se transportou para lá.

O mundo ficou um lugar muito melhor desde então: a violência sessou, a natureza se recuperou. Os governos de todos os países custearam o acesso da população, pois os custos da vida na Rede eram muito menores para os bancos públicos. E lá dentro, todos eram iguais, afinal, você escolhia tudo o que queria ser.

Pedro lançou mão do seu smartfone e mandou uma mensagem para Lisa, sua melhor amiga: “Vamos nos encontrar?”

“Estou online na sala 6A-20.”

“Não. Vamos nos encontrar do lado de fora!”

Um plano mirabolante passava em sua mente. Eles se encontrariam amanhã, na hora da sesta, quando ninguém os veria sair de casa. Poderia ser atrás do antigo prédio vermelho, onde já funcionara uma escola real, mas agora restara apenas escombros, como o resto da cidade.

E para lá ele se dirigiu. Foi extremamente fácil sair de casa. Ninguém vigiava, porque nunca havia existido motivo para isso antes. Chegou cedo ao local de encontro. Suado e com o coração disparado, tanto pela ansiedade como pelo esforço físico.

Enquanto recuperava o fôlego ouviu passos de alguém se aproximando. Quase entrou em pânico, pois nunca estivera nessa situação antes. Ainda tentava se controlar quando o vulto de Lisa apareceu, com o andar inseguro e vacilante.

Era ela completamente diferente do seu avatar da Rede. Era alta, grande, com camadas de dobras de pele e gordura recobrindo o corpo inteiro. Imediatamente lembrou-se que ele também não tinha nada do guerreiro musculoso que o representava online.

Se aproximaram timidamente e se encararam por um bom tempo. Sorriram e instintivamente esticaram as mãos para tocarem os dedos.

– Vamos nos contaminar? – Lisa se alarmou, mas não recolheu a mão.

– Acho que não.

Não falaram muito. Apenas observaram os escombros e um ao outro.

O encontro durou pouco tempo. Tinham que estar em casa antes da sesta acabar. Mas combinaram de se ver novamente. Quem sabe chamar mais algum dos amigos da Rede? Poderiam explorar um pouco as ruas vazias. Ir a todos os lugares sem serem vistos. E depois… Poderiam fazer qualquer coisa!

 Pedro voltou para casa com uma euforia que jamais sentira. Era completamente diferente conhecer e tocar uma pessoa real. Sentir a pele de Lisa na ponta dos dedos fez seu corpo todo se arrepiar! E andar essa distância toda, quase 800 metros, era exaustivo, mas de alguma maneira estranha, revigorante!

Entrou em silencio e fechou a porta do quarto, como se nunca tivesse saído de lá. Tirou a camiseta que estava encharcada de suor. Enquanto procurava outra no armário bagunçado, ouviu o notebook se ligar sozinho em cima da mesa. Uma tela azul apareceu.

Intrigado, se aproximou do computador e começou a digitar e explorar a tela com o cursor do mouse. Não respondia. Irritado, continuou a digitar uma série de comandos na tentativa de destravar a máquina.

Um apito fez seu olhar se desviar do teclado para a tela. Os pixels pareciam estar maiores. Pulsavam e aumentavam. Pedro não conseguia desviar o olhar. Eles cresciam e se aproximavam. Ocupavam todo o seu campo de visão e o deixaram tonto. Pareciam penetrar no seu cérebro.

Pedro nem percebeu quando foi sugado para dentro da tela. Foi rápido e quase indolor. Um clarão e mais nada.

No visor uma mensagem piscou por 30 segundos: “Perigo para a Rede eliminado”. Depois a tela se apagou. Nunca mais seria ligada novamente.

O médico e o bêbado.

Era mais um plantão de sábado à noite. O pronto socorro estava movimentado, mas a maioria dos pacientes não apresentava gravidade. Eram resultado de brigas estúpidas, bêbados desacordados ou vomitando trazidos pelos amigos tão bêbados quanto ou crises de ansiedades geradas por términos de relacionamentos.

Rodrigo já estava habituado com essa rotina. Afinal, esse era o seu posto desde que terminara a residência médica em cirurgia geral. Duas noites de sábado por mês, nos últimos 8 meses. Não era algo que pretendia manter por muito tempo. Estava cansado de perder programas muito mais interessantes com os amigos para cuidar de quem nem deveria estar em um hospital, em sim em uma detenção escolar, aprendendo boas maneiras, ou no consultório de um terapeuta. Mas, pagava as contas.

Seus devaneios e a sutura que realizava na testa de um brigão foram interrompidos por um enfermeiro esbaforido, que adentrou ruidosamente a sala de procedimentos:

– Doutor, o SAMU acabou de ligar e estão trazendo 3 vítimas de acidente automobilístico!

O funcionário mal terminara a frase e já era possível ouvir as sirenes se aproximando.

– Peça para alguém terminar esse curativo. – Rodrigo já descalçava as luvas e corria para a sala de emergência para receber os pacientes.

Tratava-se de dois homens e uma garota. Um dos homens estava acordado, gritando e xingando todos os profissionais por terem o amarrado na prancha de salvamento e colocado um enforcador no seu pescoço. Tratava-se do colar cervical. Ele estava evidentemente muito alcoolizado. As outras vítimas estavam desacordadas, já intubadas e sendo ventiladas artificialmente. E isso não era bom.

O socorrista informou tratar-se de uma colisão frontal de 2 automóveis, causada pelo paciente agitado. As vítimas desacordadas eram pai e filha.

Rodrigo e a equipe do pronto-atendimento colocaram-se a trabalhar rapidamente e avaliar a situação de cada um. A fratura exposta do fêmur direito do pai chamava a atenção, mas o achatamento do tórax apontava-o como o estado mais grave. A menina aparentemente não apresentava nenhum sangramento e mantinha um bom ritmo cardíaco. E o bêbado, continuava berrando e ameaçando a todos. Isso era sinal de que era o menos grave dos três.

– Quero um ultrassom abdominal da garota. – Rodrigo orientava o enfermeiro.

Um monitor começou a apitar insistentemente. O pai havia sofrido uma parada cardíaca. Médico e equipe prontamente iniciaram as manobras de ressuscitação. Massagem, ventilação, drogas, hidratação. Cardioversão elétrica. Nada. Então recomeçaram tudo de novo, e de novo, e de novo. Sem sucesso, a morte da vítima foi declarada às 2:26.

Rodrigo controlou sua frustração e se concentrou na menina. Aparentemente, o único ferimento era um corte na testa rodeado por um hematoma elevado. No resultado do ultrassom, uma surpresa: ela estava gravida!

Depois de uma avaliação minuciosa, foi afastado qualquer risco de sangramento iminente.

– Ela está estável. Vamos levá-la para a tomografia de crânio. – O jovem médico já se preparava para acompanhar a paciente.

Enquanto a máquina fazia o seu trabalho, Rodrigo acompanhava as imagens obtidas pelo computador da sala de laudos. Em poucos instantes, todas suas esperanças esvaíram-se. O cérebro da menina dava lugar a uma enorme massa branca que ocupava praticamente o hemisfério esquerdo inteiro. Era uma hemorragia gravíssima e fatal. Não havia nada que ele pudesse fazer.

Voltou para o pronto socorro com a maior sensação de impotência que já sentira. Três vidas escorreram entre seus dedos: o pai, a filha e o bebê. E ele não foi capaz de salvá-las.  Chegando na sala de emergência, estranhou o silêncio. Faltava algo.

– Onde está a terceira vítima do acidente? O Bêbado?

– Evadiu. – Informou a auxiliar. – Conseguiu se soltar da prancha e foi embora.

Rodrigo ficou irado. Sem perceber, descarregou sua raiva em uma bandeja com materiais de curativo, fazendo todos voarem pelos ares. Sentou-se no primeiro banco que encontrou, massageando as têmporas suadas e apoiando a cabeça na parede de ladrilhos amarelos.

Era uma injustiça sem tamanho! Uma família inteira morta por um irresponsável, bêbado, que nada sofreu. Que conseguiu fugir do hospital sem prestar as devidas contas com as autoridades! E a menina, que só tinha 16 anos, estava gravida! Outra vida que não teve nem a chance de vir ao mundo!

O resto do plantão transcorreu sem intercorrências, e não passou de cenas sem conexão na mente de Rodrigo. Ele estava preso àquelas vítimas. Àquela tragédia. Àquele bêbado, bandido e foragido. Um ódio aflorou em sua alma. Como ele gostaria de encontrar aquele monstro e encher sua cara de porrada, até ver todos os dentes caírem, e ele fosse incapaz de continuar gritando irritantemente todas aqueles absurdos que teve que ouvir. E ele continuaria socando, e socando e socando, até a tomografia de crânio do bêbado ficar igual a tomografia de crânio da menina. Isso seria justiça!

Foi despertado dessa imagem satisfatória com uma buzina do carro de traz, impaciente. Mal tinha se dado conta que o turno já tinha acabado e ele estava dirigindo de volta para casa. Acelerou até o próximo semáforo fechado, tentando se concentrar no que estava fazendo.

Foi quando o viu. Ali, bem na sua frente: o bêbado. Parado no meio da rua, xingando o nada, agitando os braços como se discutisse com alguém bem a sua frente. Ainda usava o colar cervical. Rodrigo olhou para os lados: as ruas estavam desertas as 7h da manhã de domingo. Não havia nenhuma testemunha. E se ele acelerasse? Apertasse o pedal até o fundo e não desviasse? Não seria justo?

A ideia era muito convidativa. Rodrigo sentiu seu coração disparar e as mãos suavam ao volante. Manteve os olhos fixos no alvo. Ele estaria apenas terminando o que o destino não deu conta. Quanto tempo demoraria para aquele desgraçado matar outro inocente?

Sem raciocinar mais, apenas enfiou o pé no acelerador até sentir o fundo do carro embaixo dele. Os pneus cantaram, e o carro disparou. Rodrigo olhou fixamente para aquele assassino e deixou o carro avançar. Já podia imaginar qual seria a sensação de quebrar todos os seus ossos.

Mas no último momento, desviou. Não teve coragem. Só conseguiu com que o bêbado se desequilibrasse com o susto e caísse sentado no chão. Podia ouvir seus insultos quando perdeu o controle do carro. A virada brusca em alta velocidade fez o automóvel capotar.

Rodrigo foi jogado em várias direções. Só então percebeu que estava sem o cinto de segurança. Colidiu com o volante, o teto, o freio de mão. Quando finalmente parou de ser sacudido, não identificava mais em que direção ficava o céu, e o solo. Não sentia suas pernas e um líquido morno rapidamente o molhava inteiro.

 Sentiu-se tonto e o mundo se fechava em uma escuridão acolhedora. Ouviu o bêbado se aproximando. Seus passos cessaram e seu rosto apareceu pela janela com os vidros estraçalhados. Estava sério, com o semblante sombrio. Encarava Rodrigo sem desviar o olhar. Aparentava sobriedade total.

Rodrigo tentou alcançá-lo com as mãos, pedindo socorro, mas o bêbado não se mexeu. Ficou parado, apenas observando diretamente seus olhos. Com uma gargalhada medonha e uma voz não humana, pronunciou as últimas palavras que o médico ouviria:

– O bêbado filho da puta matou mais um.

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