Falsas esperanças

Em uma tarde ensolarada, ela resolveu levar o filho e a bicicleta no parquinho. Era uma surpresa, mais uma tentativa. A ideia foi do marido. Afinal, o menino passava horas e horas hipnotizado na frente da televisão assistindo ao mesmo vídeo de campeonato de ciclismo. Nem piscava. Era como se o restante do mundo não existisse mais.

Escolheu uma bicicleta vermelha. A cor favorita da criança. Era a cor das roupas que ele permitia se vestir e da comida que aceitava comer sem que uma guerra fosse necessária para isso.

E lá estavam: o filho e a bicicleta. A mãe mostrou as outras crianças pedalando e se divertindo. Incentivou o menino a tentar. Mas ele se recusou a montar e permaneceu estático, apenas observando sua nova aquisição.

 Não precisa ter medo, meu amor. É só fazer assim, olha só! – Ela própria se sentou no objeto pequeno demais e tentou mostrar o que fazer.

Mas o garoto permanecia impassível. Olhando a mãe que pedalava desajeitadamente ao seu redor. Ela desceu, e ofereceu o brinquedo para ele. O menino aproximou-se e tocou o selim com as pontas dos dedos. O coração da mãe encheu-se de esperança.

– Eu ajudo você a subir.

Precipitou-se, pegando o garotinho no colo e colocando-o sentado na bicicleta. Mas ele se apavorou e começou a espernear e a gritar com toda a força de seus pulmões. A mãe percebeu o erro causado por sua empolgação, mas era tarde demais. Filho e bicicleta tombaram na grama.

O menino continuava gritando, enquanto puxava seus cabelos e se balançava no lugar. Decepcionada, a mãe abraçou-o, tentando acalmá-lo. Podia enxergar com a visão periférica os olhares das outras mães. Reprovadores, acusadores. Já deveria estar habituada a eles. Mas esses olhares sempre a matavam. Um pouco mais por vez.

Quando o filho se acalmou, voltou a fitar a bicicleta, agora caída no chão. A mãe, por um instante, odiou aquele trambolho vermelho. E odiou o marido pela falsa esperança que sua ideia tinha gerado. Estava tão cansada de ter falsas esperanças!

– Vamos para casa, então… – Ela estendeu a mão para o filho se levantar.

Mas ele ignorou o gesto. Permanecia olhando a bicicleta desfalecida na sua frente. Ela rendeu-se à exaustão que sempre aparecia após cada tentativa frustrada. Sentou-se ao lado da criança e deixou que contemplasse o brinquedo, o tempo que quisesse.

Ficaram os dois sentados, lado a lado, por um longo tempo. A mulher fingia ignorar os olhares e cochichos das outras mães. E das outras crianças. A armadura invisível sempre precisava sair de casa com ela.

De repente, o menino mexeu-se. Engatinhou para junto da bicicleta. Timidamente tocou em uma das rodas e deu impulso para que ela girasse. Repetiu o gesto quando estava quase parando, com mais força. A roda girava, girava e girava enquanto o sol refletia no aro de metal e iluminava de volta o seu rosto – o mesmo olhar hipnotizado que era despejado sobre o vídeo do campeonato de ciclismo.

Ele ficou fazendo aquilo por um tempo interminável. Até que, sorriu. Um sorriso puro, inocente, verdadeiro. Um sorriso que mostrava o espaço deixado pelo dentinho que acabara de perder. E a mãe, sorriu de volta. Sentindo o coração encher-se de esperança novamente. Mas dessa vez, não eram falsas. Em seis anos, nunca tinha visto o filho sorrir.

É só mais um dia de quarentena.

Chego em casa depois de um longo dia de trabalho no hospital. Já completamos cinco meses de quarentena e fomos forçados a nos adaptar a uma nova rotina: home office, home school, máscaras, confinamento. Eu preciso manter minhas idas ao trabalho, pois os pacientes precisam de mim. E isso chega a ser até um alívio: um motivo justificado para ver o mundo além das janelas do apartamento.

Pego as chaves na bolsa e respiro fundo. Saboreando por mais alguns segundos a sensação falsa de paz e liberdade. Sei que é agora que o real trabalho do dia vai começar.

Abro a porta lentamente, como se me preparando para receber um grande impacto. A primeira coisa estranha que noto é o silêncio. Anormal, deslocado, improprio. Um mal pressentimento toma conta de mim e faz meus braços se arrepiarem.

Ao entrar na sala, noto o marido sentado à mesa, concentrado sem seus afazeres no computador, na mesma posição que estava quando saí. Ele discute algo enfaticamente com pessoas invisíveis, sem tirar os olhos da tela. Usa fones de ouvido e não percebeu a minha chegada.

Em seguida percorro os olhos sobre os inúmeros objetos espalhados sobre a mesma mesa: cadernos, apostilas, tablets, lápis coloridos. E me deparo com manchas vermelhas horrorosas ocupando todo o estofado da cadeira minha frente. Sangue! Houve um esquartejamento na minha casa!

Assustada, largo a bolsa no chão e me aproximo para examinar: não é sangue. É tinta! Senti um alívio que rapidamente foi desfeito ao olhar para as demais cadeiras mesa: todas estavam manchadas, com as mais diferentes cores e formas. Os encostos e assentos tons pastéis foram substituídos por desenhos abstratos e berrantes que escorriam até o chão. Encaro furiosa o marido, que continua compenetrado na sua discussão e ainda não notou a minha presença.

O silêncio me incomodava. Sigo cautelosamente pelo corredor do apartamento. Paro à porta do primeiro quarto. O do menino. O chão está atapetado por brinquedos de todas as formas e tamanhos. Mãozinhas coloridas carimbadas na parede e um tipo de gosma não identificável recobre o colchão da cama.

No banheiro do corredor, rolos de papel higiênico foram desfeitos e espalhados por todos os lados. A pia está entupida por uma rolha de papel molhado e a água da torneira aberta escorre para o chão. Fecho a torneira. O marido continua debatendo ao fundo.

O quarto da menina não apresentava condições melhores. Bonecas rabiscadas e sem roupas pelo chão, paredes decoradas com giz de cera e canetinhas, livros e sapatos espalhados. Mas o silêncio continuava. Senti minha nuca arrepiar e o coração disparar.

Entro no meu quarto. Toda a roupa de cama tinha sido arrancada e jazia numa pilha com os travesseiros em um canto. No colchão box, mais mãozinhas coloridas carimbadas. Meu armário de roupas estava escancarado e parecia ter vomitado tudo o que estava guardado lá. Blusas, calças, casacos, calcinhas, escorriam de suas entranhas.

De repente, ouvi risadinhas abafadas vindas do banheiro da suíte. Pé ante pé me aproximei e abri uma fresta pela porta, o suficiente para espiar o que estavam fazendo. Lá estavam eles. Os dois dentro da banheira, de roupa, um lavando o cabelo um do outro à seco, e claro, utilizando o meu shampoo de duzentos reais.

Foi quando me ocorreu: ninguém percebeu a minha chegada. Poderia regressar por todo o caminho que percorrera, silenciosamente e desaparecer. Talvez voltar para o hospital e me esconder no quarto dos médicos. Dirigir sem rumo até a gasolina acabar. Ou simplesmente caminhar a esmo e sumir.

A ideia foi muito tentadora e vagarosamente recuei tentando não fazer nenhum ruído. Mas, meu celular tocou. Imediatamente as duas cabecinhas se voltaram para mim:

– Mamãe!

Ao fundo ouvi o marido levantando-se da mesa e recolhendo suas parafernálias para se entocar no escritório:

– Graças a Deus você chegou! Agora vou conseguir trabalhar!

Atendi o aparelho delator. Era minha mãe:

– Oi filha. Tudo bem por aí?

Como seria possível definir o “tudo bem”? Suspirei profundamente:

– Tudo. É só mais um dia de quarentena. Nada além disso.

Tempo, seja meu amigo.

A maternidade é uma nova e desafiadora fase da vida. Ela transforma a nossa visão de mundo, a nossa individualidade, as nossas prioridades. É como se tudo o que vivemos até ali, fosse um capítulo à parte. Um capítulo encerrado. Agora é hora de virar a página do nosso livro e iniciar uma jornada completamente nova. Muitas vezes assustadora. Mas também inspiradora.

Escrevi esse poema no primeiro aniversário do meu primogênito. Foi a maneira que encontrei para expressar tudo o que sentia ao pensar que aquele bebê tão esperado estava crescendo. Eu tinha medo que os momentos mágicos e sublimes que vivíamos acabassem. Mal sabia que eles sempre existiriam. Independente de quantos aniversários se passassem.

Achei perfeito para ser o primeiro post do meu blog. Espero que gostem.

Tempo, seja meu amigo.

Nos deixe ficar assim mais um pouquinho.

Não corra, caminhe lentamente.

Despretensioso e sem pressa.


Não deixe os olhares apaixonados apagarem.

Não deixe os beijos babados secarem.

Não deixe os abraços apertados afrouxarem.


Tempo, seja meu amigo.

Nos deixe ficar assim mais um pouquinho.


Deixe o meu colo ainda ser a cura da dor, do medo, do sono.

Deixe meu seio ainda ser a cura da fome, da manha, da saudade.

Deixe minha cama ainda ser o aconchego da noite.


Tempo, seja meu amigo.

Nos deixe ficar assim mais um pouquinho.


Que os minutos se arrastem.

Que os momentos congelem.

Que os anos não passem.


Mas, tempo, mesmo se você não for meu amigo…

Nós vamos ficar assim mais um pouquinho.


Meu beijo sempre curará todas as dores.

Meus braços sempre afastarão todos os medos.

Meu colo sempre acolherá todos os anseios.


Seu sorrido sempre iluminará a minha alma.

Suas conquistas sempre alimentarão as minhas forças.

Sua felicidade sempre será a minha felicidade.


E mesmo quando seus pezinhos gordinhos estiverem o dobro dos meus,

Você ainda caberá neste mesmo colo,

Nesses mesmos braços,

Nesses mesmos beijos.


Mas, tempo, por favor, seja meu amigo.

E nos deixe ficar assim mais um pouquinho.

Avaliação: 5 de 5.

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