Um conto de Natal

Maria detestava essa época do ano: o Natal. Não porque tivesse algum trauma de infância, ou não pertencesse a uma família unida o suficiente para se reunir pelo menos na noite de vinte e quatro de dezembro. Não era nada pessoal contra o Natal em si. Mas detestava a falsidade das pessoas! Subitamente todos eram embebidos pelo tal “espírito natalino” e instantaneamente tudo o que fizeram de mal durante o ano era esquecido e perdoado. Ninguém sentia mais inveja, raiva, mesquinhez. De repente, todos se amavam e estavam se abraçando nas confraternizações de fim de ano. Trocavam presentinhos, abraços e juras de amor, como se não tivessem tentado prejudicar um ao outro durante todos os demais dias do ano. Para ela, era a época da hipocrisia.

Isso, sem mencionar o consumismo desenfreado que a mídia nos impulsionada a cometer. Eram presentes para os pais, irmãos, sobrinhos, chefe, amigos, professoras, gato, cachorro, papagaio. Não dava nem tempo de visualizar o décimo terceiro na conta bancária.

Sim, existiam campanhas solidárias beneficentes que se multiplicavam em dezembro. E isso era bom, sem dúvida! Mas e os outros dias do ano? Os necessitados continuavam com necessidades. E não era apenas de brinquedos que centenas de crianças carentes precisavam.

Estava pensando nessas questões que a assombravam todos os finais de ano enquanto desviava da multidão que transitava pelas ruas de comércio popular da cidade. Aparentemente metade da população teve a mesma ideia de aproveitar o horário do almoço para colocar as compras obrigatórias em dia.

Era um mar de corpos e sacolas se esbarrando sob o sol quente do meio-dia. O cheiro ocre amarelado de suor se misturava ao doce enjoativo de perfume barato. Já estava irritada por não conseguir entrar nas lojas lotadas e seu humor só piorava ao ser sacudida, esbarrada e pisoteada. Decidiu que era melhor voltar ao trabalho e deixar as compras para um outro momento.

Voltava apressada para o carro, quando ouviu o tilintar cintilante de um sino, acompanhado por: “Ho, ho, ho! Feliz Natal”. Observou o Papai Noel logo a sua frente, de costas e balançando o sininho dourado. Outra coisa que detestava no Natal: ver pessoas idosas se vestindo com essa roupa quente e pesada, em pleno verão tropical! Não fazia ideia como ele não estava passando mal. Ela mesma suava, sentia uma sede horrível e desmaiaria se não saísse logo dali. Mas aparentemente o bom velhinho não estava incomodado e caminhava despreocupadamente carregando um enorme saco vermelho. E ninguém parecia se impressionar com a sua presença. Passava desapercebido pela multidão.

Finalmente chegou ao carro. Deixou as sacolas no porta-malas e ao se dirigir para a porta do motorista, seu pé esbarrou em algo que rolou despertando o mesmo som cintilante: o sininho dourado do papai Noel. Maria resgatou-o e vasculhou o mar de gente com o olhar. Nem sinal da roupa vermelha quente e chamativa. Acabou guardando o objeto na bolsa e apressou-se a voltar para a empresa.

O trânsito estava lento, e ela com pressa. Finalmente virou à direita deixando para traz as ruas estreitas do centro e ganhando velocidade na avenida mais larga. De repente um carro branco corta a sua frente e se Maria não freasse imediatamente, teriam se chocado.

“Filho da puta!”, pensou enquanto descarregava a raiva na buzina. “Tomara que bata o carro para aprender a dirigir!”.

Em pouco segundos escutou a freada arrastada, buzinas e a colisão. Olhou pela janela e viu o carro branco prensado entre outros dois carros. A motorista desceu desesperada e gritando:

– Meu bebê! Meu bebê!!!

Maria prendeu a respiração enquanto a mulher era ajudada por outras pessoas a abrir a porta amassada e finalmente resgatar o bebê rechonchudo da cadeirinha. Aparentemente ileso. Sentiu uma pontada de culpa pelo pensamento que tivera. Que coisa horrível de se desejar a alguém!

Finalmente chegou ao prédio que trabalhava na hora exata. “Que tenha vaga. Por favor, que tenha vaga para estacionar!”. Ela sorriu ao ver a espaçosa vaga que a aguardava bem em frente à entrada. Estacionou rápido e sem dificuldades. Pôs-se a correr, com o sino balançando e tilintando dentro da bolsa, quando viu que todos entraram no elevador, prestes a partir.

“Não feche a porta. Me espere chegar!”. Aparentemente a porta do elevador enguiçou, disparando um alarme fino e ardido. Foi o tempo que ela precisava para alcançá-lo, e imediatamente após a sua chegada, a porta se fechou e a caixa de metal passou a subir normalmente pelos andares.

Finalmente adentrou em sua baia e ligou o computador. O suor escorria por sua testa e empapava os cabelos negros grudados na nuca. Ela estava faminta, não tinha almoçado, mas pelo menos chegara a tempo para os compromissos da tarde.

– Sete minutos, Maria. Está atrasada sete minutos! Terei que descontar da sua folha de pagamento.

A voz esganiçada a sobressaltou. Não precisava olhar para saber que se tratava da sua supervisora. A pessoa mais desprovida de empatia que já conhecera. “Megera!”. Maria desabafava mentalmente enquanto tentava se concentrar nas planilhas que tinha que entregar até o final do dia. “Espero que seja demitida para sentir como é bom não ter dinheiro suficiente!”.

Maria se concentrou em suas obrigações e não percebeu o tempo passar. Foi apenas quando a bexiga pesava muito que resolveu dar uma pausa e ir se aliviar. Chegando ao banheiro se surpreendeu ao encontrar a supervisora megera chorando. Ficou sem reação. Não sabia se falava alguma coisa ou fingia que não a viu.

– No Natal. Bem no Natal! – a supervisora falava com ela pelo espelho. – Me demitiram bem no Natal!

– Eu sinto muito. – Foi tudo o que Maria conseguiu dizer.

– Eu também. Trabalho nessa empresa há vinte anos! Eles me jogaram fora como lixo! – Ela fungava e assoava o nariz. – Como vou continuar pagando pelos remédios da minha filha agora?! Ela não pode ficar sem eles!

Maria sentiu um vazio enorme. Nunca se deu conta que por trás daquela megera pudesse existir um ser humano real. Alguém com sentimentos e necessidades. E com uma filha doente. Se sentiu péssima com a situação, e de alguma maneira absurda, responsável.

Voltou para sua baia sem o menor ânimo para continuar o que estava fazendo. Se sentia só, e indigna de qualquer consideração. Resolveu pegar o celular e mandar uma mensagem para sua melhor amiga para amenizar a reprovação que sentia de si mesma. Abriu a bolsa e sua mão esbarrou no sino. O tilintar a arrepiou. Recolheu o braço como se tivesse sido queimada, e fechou a bolsa novamente.

Inquieta, abandonou o computador e foi à copa dos funcionários achar algo para comer. Encontrou um saco de bolachas começado e programou a máquina automática para que cuspisse um café forte com gosto de terra. Quando estava retirando a xícara, sentiu um beliscão dolorido em sua nádega esquerda.

– Nossa, Maria! – a voz masculina aveludada soprava em seus ouvidos. – Se continuar usando essas calças justas poderei te promover à supervisora, agora que aquela magrela sem sal foi mandada embora.

Maria tencionou o corpo todo e fechou os olhos com força, tentando se controlar. Podia sentir o sorriso prepotente às suas costas e a respiração quente em sua nuca. “Como te odeio, seu desgraçado! Queria que morresse!”.

O chefe saiu da copa vagarosamente, sem desviar o olhar e mantendo o sorriso cafajeste no canto da boca. Ela segurou o ar, retesada contra a pia, até que ele sumisse da sua vista. Jogou o café fora sem provar. Foi quando se deu conta do que desejou e um súbito arrepio percorreu suas costas.

Saiu em disparada de volta para sua baia, alcançando a bolsa desesperadamente. Ouviu o tilintar cintilante antes mesmo de ver o sino lá dentro.

– Eu não quero que ele morra, ouviu?! Foi força de expressão, eu só estava com raiva. Por favor! Não faça isso. Eu não quero que ele morra!

Passou o resto da tarde vigiando o detestável chefe com olhar, sentindo um medo enorme de vê-lo infartar e cair duro bem na sua frente. Ou pior, dele achar que ela estava correspondendo às suas investidas asquerosas.

Finalmente o dia acabou e ela podia ir embora. Estava exausta! Só queria se refugiar na sua cama e fingir que o mundo não pulsava dentro da sua cabeça. Abria a porta do carro quando viu seu superior atravessando a rua. Um carro em alta velocidade apareceu de repente e investiu em sua direção pelo sinal vermelho. Maria não teve tempo de gritar. Ouviu a buzina estridente e fechou os olhos.

Demorou alguns segundos para voltar a abri-los. O fez com o coração disparado. Teve tempo de ver o homem chegando em segurança do outro lado da rua, balançando os braços e xingando o carro que já estava longe. Maria soltou o ar, que nem percebeu que estava segurando, e tratou de sair logo dali.

Dirigia distraída, pensando em todas as coisas estranhas que acontecera e tentando decidir se estava perdendo a sanidade ou não. Foi o quando o viu: andando sem pressa pela calçada, carregando o saco vermelho, e cantando “Ho, ho, ho!”. Sem balançar o sino agora. Aparentemente, nenhum passante repara ou se mobilizava com sua presença.

Maria parou numa vaga próxima, que mais uma vez, esperava por ela. Desceu do carro e pôs-se a correr com a bolsa à tira colo, despertando mais uma vez o tilintar cintilante do sino.

– Papai Noel!

O bom velhinho se deteve e virou em sua direção. Era exatamente como ela o imaginara quando criança: bochechas rosadas e rechonchudas, barba branca como algodão, olhos azuis gentis. Ficou sem graça quando percebeu que ele aguardava que dissesse alguma coisa enquanto ela apenas permanecia imóvel, admirada.

– Acho que isso é seu. – Tirou da bolsa e o entregou o sino dourado.

– Veja só! Achei que o tinha perdido! Muito obrigada, minha criança.

Maria sorriu de volta e sentiu-se corar.

– Agora me diga, criança. O que você vai querer ganhar de Natal?

Ela pensou por um breve momento, mas não teve dúvidas:

– Eu quero ser uma pessoa melhor.

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