Cena Spin-off de “Cores de Vida e de Morte”

ATENÇÃO!

O texto a seguir contém spoilers. Se você ainda não leu o Volume 1 da trilogia “As cores de Sophia” não prossiga.

Leia o livro primeiro! 😉

Pedro

Não sei por que deixo a Sophia me convencer a fazer essas loucuras. Tem algo de diferente com ela. Desde a faculdade, me deixa atônito quando me olha nos olhos e parece estar lendo os segredos mais profundos da minha alma – aqueles que nem mesmo eu conheço. Ou quando descobre os diagnósticos mais absurdos, como se estivessem estampados na testa dos pacientes, com algum tipo de tinta que somente ela é capaz de enxergar. Já desisti de tentar entender as partidas de truco.

Depois, me vem com essa história de mortes erradas, assassinatos, tráfico de órgãos… Se minha mãe soubesse que eu a ajudei a invadir a sala administrativa do Memorial, acho que ela mesma me prenderia. E agora estamos aqui, andando no meio do mato, contornando um galpão no meio do nada, cheio de criminosos. Por que eu continuo fazendo essas loucuras por ela? Bom, é isso que os amigos fazem, não é? Ela é a minha melhor amiga. E tenho certeza de que ela faria por mim também.

Finalmente alcançamos a parte de traz do galpão retangular. Todos desviamos dos entulhos espalhados no escuro até estarmos espremidos contra a parede, tentando não fazer barulho, nem mesmo com a nossa respiração. Luiz espia a lateral do prédio e faz sinal para avançarmos. Seguimos em fila, rentes às sombras, tentando permanecer invisíveis. Não racionalizo o que estamos fazendo: para mim está claro que se trata de suicídio. Porém, jamais deixaria Sophia fazer isso sozinha.

Quando alcançamos a frente do prédio, Bia aponta para uma sombra na parede e parte naquela direção sem nos dar a chance de responder. Sophia a segue, e percebo que a sombra se trata de uma porta. Engulo seco, arrumo meus óculos que escorregam sobre meu nariz suado e tento controlar o pânico. Entro pela abertura também.

As duas estão protegidas atrás de um enorme contêiner, e há outros espalhados pelo interior do galpão. Me junto a elas e sou acompanhado por Luiz e Felipe. Assim que a penumbra nos engole, uma das ambulâncias sai pelo portão automático e se perde na estradinha de terra que nos trouxe até aqui.

Bia tira fotos sem parar. Vejo as caixas térmicas, com os possíveis órgão contrabandeados, sendo divididas entre as duas ambulâncias que restaram. Bia mostra o visor da máquina para Sophia e ambas olham na direção do contêiner do lado oposto do galpão. Tenho a impressão de ver um vulto se escondendo lá, mas meus óculos não me ajudam a ver com nitidez a essa distância.

— O que estamos fazendo aqui? — Pergunto ansioso para Luiz.

Ele encolhe ombros:

— Acho que estamos esperando os policiais…

Sophia e Bia começam uma discussão muda, com gestos enfáticos. Felipe pega a máquina fotográfica das mãos de Bia:

— Eu vou, sou mais rápido. Consigo atravessar sem ser visto.

Sophia protesta, mas Felipe sai correndo de nosso esconderijo, tentando chegar ao próximo contêiner. Mal tenho tempo de entender o que está acontecendo, quando ela também dispara na direção de Felipe, sem nenhuma explicação.

Ouço o tiro.

Sophia cai imediatamente no chão e uma poça de sangue desabrocha sob ela. Sem perceber, também estou correndo na sua direção.

A alcanço no momento em que sons estridentes de sirenes invadem o galpão e se misturam a gritos, mas os ignoro. Só vejo Sophia, pálida, com o rosto suado, se afogando em seu próprio sangue, que mina por um pequeno orifício negro em seu abdômen. Fico paralisado, escutando o choro desesperado de Bia atrás de mim.

— Está tudo bem, — minha melhor amiga balbucia tentando sorrir — não está doendo.

Vejo a vida deixar o seu semblante quando ela perde a consciência. O mundo parece desmoronar ao meu redor, e eu simplesmente não consigo me mexer. Estou apavorado!

— Eles não estão cinzas! Eles não estão cinzas! — Uma voz conhecida me desperta.

Dr. Lucas se materializa ao nosso lado, me empurrando para conseguir chegar até o corpo de Sophia. Ele e Felipe trocam olhares desesperados.

— O pulso está fraco. — Felipe constata.

Dr. Lucas procura a pulsação com os dedos, de maneira segura e profissional. Em seguida, começa as compressões cardíacas:

— Ela está em parada. Rápido, faça as respirações!

Enquanto meu professor massageia o coração estático, Felipe faz as respirações boca-a boca. Eu continuo sem me mexer. Tenho a sensação de que vou desmaiar sobre toda a volemia de Sophia, que tinge de rubro o chão de cimento esburacado.

— Pedro! Pedro! — Luiz me sacode aflito. — Está me ouvindo?

— Sim, acho que sim.

— Olhe para mim. — Ele desvia meu rosto para seu olhar assustado. — A Sophia precisa de você, tá legal? Se concentre!

Concordo freneticamente, sentindo as lagrimas escorrerem e afogarem a minha visão.

— Ótimo. Agora ache alguma coisa para estancar o sangramento. Consegue fazer isso?

— O pulso voltou! — Dr. Lucas anuncia.

Me afasto de onde estão e tenho apenas uma vaga noção da polícia que invade o galpão, das armas em punho, das algemas, das prisões. Caminho pensando no que poderia usar para interromper um sangramento tão grande, quando me vejo parado em frente as portas abertas de uma das ambulâncias. Entro tropeçando nas caixas térmicas largadas ali. Abro a primeira gaveta que alcanço e encontro várias ampolas de medicação. Na próxima, material para intubação. Cilindro de oxigênio, frascos de soro fisiológico…

— Graças à Deus!

Pego um pacote de compressas e volto correndo para onde Sophia vive por um fio.

— As ambulâncias! — Grito e jogo o pacote para Felipe. — São UTIs móveis de verdade! E estão equipadas!

Vejo um lampejo de esperança no semblante de todos. Felipe faz um curativo compressivo da melhor maneira que consegue e os três carregam o corpo flácido e seco para dentro da ambulância.

Bia faz menção de ir com eles, mas entro em seu caminho. Apoio minhas mãos em seus ombros, que soluçam.

— Bia, é melhor você ir com o Thomas.

— Mas, eu não posso deixá-la… É a Sophia!

— Ela está em boas mãos. O Dr. Lucas é um grande médico. Nos encontre no Memorial.

Thomas finalmente aparece no meio da confusão que acontece ao nosso redor. Abraça Bia com cuidado e apreensão. Ela desmorona ao seu toque.

— Cuide dela, Pedro, por favor…

— Posso ajudar em algo? – Thomas oferece.

Penso por um instante.

— Pode. Precisamos do agente que seja o melhor piloto aqui presente.

Quando volto para dentro da ambulância, Sophia está intubada, recebendo litros de soro por um acesso profundo em seu pescoço, realizado de maneira magistral por Luiz. Perece estável, mas a mancha vermelha escura no curativo em seu abdômen não para de crescer.

O motor da ambulância é acionado. Nos sobressaltamos.

— Se segurem. — Moraes avisa antes de pisar fundo no acelerador e sair do galpão cantando pneu.

Em instantes estamos sendo sacudidos pela estradinha de terra, rumo à rodovia dos Imigrantes. A sirene já grita alto, fazendo meus ouvidos zunirem.

Felipe continua comprimindo o ferimento da melhor maneira que consegue.

— Alô, aqui é o Dr. Lucas Martinelli. Preciso falar com o chefe da cirurgia de emergência que está de plantão. É uma situação extremamente urgente…

Dr. Lucas continua falando ao telefone, preparando nossa chegada no Memorial. Troco olhares preocupados com Felipe.

— Ela vai ficar bem? — Pergunto.

— Tem que ficar.

Quando a ambulância alcança a Avenida do Bandeirantes, já de volta à São Paulo, o monitor cardíaco distara seu alarme estridente e uma linha reta aparece na tela.

— Outra parada cardíaca! — Constato e imediatamente me debruço sobre o peito de Sophia, reiniciando as compressões.

— Uma ampola de adrenalina. — Dr. Lucas assume o comando, como um maestro.

Luiz realiza a medicação, enquanto eu não diminuo o ritmo da massagem cardíaca.

— Ela precisa de mais volume. Mais um litro de soro… — ouço a voz do professor.

Minhas mãos começam a formigar, sinto o suor escorrendo pelo meu rosto. Olho desesperado para a tela do monitor, mas a linha se mantém estática.

— Deixa que eu faço agora. — Felipe assume o meu lugar.

Mais um ciclo de ressuscitação se reinicia. Conto os minutos aflito, sabendo que a cada segundo que se passa, sem a oxigenação adequada, as chances de sequelas neurológicas são imensas. Até mesmo, uma morte cerebral.

— Mais adrenalina!

Já se passaram nove minutos.

— Vamos lá, Sophia! Não faça isso comigo. — Felipe também está suado, com os braços trêmulos.

— Eu faço agora. — Lucas se posiciona e assume as compressões. Seu semblante é como uma máscara: profissional e inexpressivo. Mas eu sei o que aconteceu entre ele e Sophia. Sei que também está apavorado.

Onze minutos.

Já me sinto derrotado, e minhas esperanças começam a dissolver-se. Tudo ao meu redor fica nublado, e me sento em um canto da ambulância, deixando a cabeça cair sobre minhas mãos. Ouço o estalar das costelas cedendo à massagem e a respiração de Lucas, ofegante pelo esforço. Tiro os óculos e deixo as lágrimas escorrerem – não adianta mais. É muito tempo. Não vai sobrar mais nada da Sophia aí dentro. Nada mais de olhares profundos, diagnósticos mirabolantes, sorrisos amigos, abraços apertados. Nada mais de minha melhor amiga.

— Ela voltou!

Me levanto sobressaltado, ao som monótono do monitor cardíaco. A ambulância já está subindo na rampa de acesso da entrada de emergência do pronto-socorro do Memorial.

— Quanto tempo foi de parada? — pergunto.

— Quinze minutos. — Luiz responde.

As portas traseiras do carro se abrem e nos deparamos com toda a equipe de cirurgia nos esperando. Descemos a maca com o corpo imóvel de Sophia, que é rapidamente levada para dentro do hospital. Dr. Lucas permanece ao seu lado, e se mistura no meio dos cirurgiões. Em câmera lenta, assistimos todos se movimentando com urgência e se perdendo dentro do Memorial, enquanto as portas da entrada de emergência se fecham na nossa frente.

Eu, Luiz e Felipe permanecemos imóveis ao lado da ambulância, sujos de sangue, suados, cansados e assustados. Ainda olhamos para as portas fechadas.

— Quinze minutos é muito tempo. — Digo. — Vocês sabem disso, não?

Lançamento presencial do volume II, “Cores das Chamas e da Escuridão”, em 10/12/22, às 19h, na Livraria da Vila do Shopping Iguatemi Campinas.

O Volume I da trilogia “As Cores de Sophia – Cores de Vida e de Morte”, eleito o melhor suspense de 2021 pelo Prêmio Book Brasil, e o volume II, “Cores das Chamas e da Escuridão” já estão disponíveis no formato físico e digital. É só clicar no link e deixar o meu universo se misturar ao seu. Tenho certeza de que nunca mais enxergará a realidade da mesma maneira.

Leia mais: Cena Spin-off de “Cores de Vida e de Morte”

Fios de clara de ovo

A UTI estava agora sempre lotada. Desde o início da pandemia COVID-19, ter um leito disponível era impossível. Os pacientes pioravam muito rápido, precisavam de intubação e suporte ventilatório. E ficavam semanas nesse estado, com melhora muito lenta, o que impossibilitava atender outros pacientes. Era o chamado “colapso” que tanto temíamos.

Os bipes dos monitores e o som dos ventiladores mecânicos embalavam o plantão. Pacientes imóveis e críticos se espalhavam por todo o salão do setor, ocupando até mesmo os leitos extras improvisados na urgência.

Era em um deles que ele se encontrava. Dr. Paulo era um médico querido por toda a equipe. Dedicado à sua vocação, nunca abandonou a linha de frente. Mesmo quando mal sabíamos com que estávamos lidando, ele estava lá, pronto para ajudar. Como um cavaleiro heroico em sua armadura sob a forma de jaleco branco. Munido com conhecimento e experiência. Mas, até ele foi abatido, e se encontrada agora dependente do ar empurrado para dentro dos seus pulmões artificialmente.

Ele era estimado por todos. Mas principalmente por mim. Paulo e eu vivíamos um romance às escondidas há 1 ano. Sempre tivemos medo de nos assumir, pensando no impacto que isso geraria dentro do nosso ambiente de trabalho, visto que ele é meu chefe, e o hospital é financiado por uma instituição católica, que não aprovaria um relacionamento dessa natureza. Talvez agora, não faça mais diferença.

A falsa tranquilidade do plantão foi interrompida pelo alarme estridente do monitor cardíaco do leito 9. Uma senhora de 77 anos havia sofrido uma parada cardíaca. Prontamente eu e minha equipe começamos as manobras de ressuscitação: massagem cardíaca, drogas, cardioversão elétrica. O ciclo foi repetido durante 15 longos minutos. Quando já estava quase desistindo, o pulso voltou. Esse tipo de intercorrência tinha virado rotina, mas a maioria dos pacientes não tinha um desfecho tão favorável.

No plantão seguinte, Paulo continuava em estado crítico. Sem nenhuma melhora. Mas a senhora do leito 9, estava acordada, respirando espontaneamente através da sua máscara de oxigênio.

A examinava quando ela afastou a máscara e me interrompeu:

– Eu vi tudo, meu filho.

Retirei o estetoscópio para ouvi-la melhor.

– Eu vi você me apertando quando meu coração parou. Vi quando me deu aquele choque igual nos filmes. – E levou a mão trêmula até o peito em um gesto inconsciente.

– Isso não é possível, dona Cida. A senhora deve ter sonhado.

Ela olhava para o teto enquanto falava:

– Eu estava lá em cima. Vendo tudo. Flutuando como um balão. E tinha um fio transparente, como clara de ovo, que me impedia de sair voando…

– É só o seu cérebro pregando peças, por causa da falta de oxigênio durante a parada cardíaca, e…

– E todos aqui estão flutuando também. – Ela me interrompeu, ignorando minhas explicações. – Todos estão presos pelo fio de clara de ovo. Mas alguns são bem fininhos. E acho que são esses que vão morrer em breve.

– Fios de clara de ovo?

– Isso mesmo. Os fininhos vão se romper. Acho que então o corpo morre, mas a pessoa vai sair voando por esse teto.

Não respondi. Me limitei a concordar sorrindo. Pacientes idosos sempre acabavam delirando em internações prolongadas.

– Eu sei que não acredita em mim. Eu também não acreditaria. Pareço uma louca. Mas você vai ver.

– Vou ver o quê, dona Cida?

– Aquele ali. O leito doze. Tinha o fio mais fininho.

– Tudo bem. Vou ficar de olho nele. Agora é melhor a senhora parar de falar e colocar sua máscara de novo. A saturação começou a cair.

Terminei de avaliar os pacientes e finalmente pude me recolher na pequena copa para jantar. Mal tinha engolido a terceira garfada, quando a enfermeira abriu a porta abruptamente:

– Doutor! O paciente do leito doze está em parada cardíaca!

Larguei a refeição e fomos correndo atender a emergência. Depois de tentar as manobras de ressuscitação por 30 minutos, fui obrigado a constatar o óbito. Não pude evitar de encarar dona Cida quando passei desanimado na frente do seu leito. Ela me chamou com seus dedos magros e manchados. Ao me aproximar, ela abaixou novamente a máscara e disse baixinho, revelando um segredo:

– Aquela ali, do leito dois.

– O que tem ela, dona Cida?

Antes que ela me respondesse, o monitor cardíaco daquele leito disparou o alarme. Outra parada cardíaca. Novamente, a correria se instalou na UTI. Massagem, choque, drogas, óbito.

Me sentia frustrado, e até mesmo irritado. Passei na frente do leito 9 sem olhar para dona Cida. Aquilo era ridículo, e estava me desconcentrando do meu trabalho! Entrei no quarto de repouso dos médicos e me joguei numa poltrona. Tentava raciocinar logicamente. Fios de clara de ovos não existem. Pessoas não flutuam fora do corpo como balão. Aquilo era delírio de uma velha doente.

Por outro lado, foram aqueles exatos pacientes que faleceram. Como ela falou. Mas todos aqui são pacientes graves, lutando pela vida. Não é tão surpreendente assim que alguns não vençam. E foi quando tive um estalo: Paulo! Se houvesse alguma verdade naquela fantasia, dona Cida poderia me dizer como era o fio de clara de ovo de Paulo. Se ele venceria sua batalha. Era loucura, eu sei. Mas a esperança não é racional.

Voltei ao leito 9. Dona Cida apenas me encarava, com sua respiração ofegante embaçando a máscara de oxigênio.

– Você disse que todos estão flutuando presos aos fios de clara de ovo, certo?

Apenas concordou, sem forças para falar.

– Como era o fio do paciente do leito quatro?

Ela me olhava fixamente. Me aproximei um pouco mais e perguntei novamente. A paciente continuava me encarando, com o olhar perdido, opaco.

– Dona Cida, como era o fio do paciente do leito quatro?!

Nada, apenas o olhar vazio.

– Dona Cida?! Dona Cida, me responda!

Quando dei por mim eu estava sacudindo a velha senhora com desespero, e só sai daquele transe por causa do alarme do monitor. Seu coração parara novamente. Imediatamente, a equipe invadiu o box do leito e as manobras recomeçaram. Não conseguia desviar o olhar do teto, como se esperasse ver dona Cida lá em cima, e de alguma maneira ela conseguisse me responder. Conseguisse acabar com a minha angústia, com o meu desespero. Como era o fio do paciente do leito 4?! Mas o coração de dona Cida nunca voltou a bater.

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